NÃO HÁ FESTA COMO ESTA
A Festa do Avante! celebra este ano cinquenta anos. Cinquenta anos de uma realização que atravessou governos, crises, mudanças políticas, transformações sociais e até profundas alterações no próprio peso eleitoral do Partido Comunista Português.
E, no entanto, a Festa continua.
Não sou comunista. Nem é necessário sê-lo para reconhecer aquilo que é evidente. Basta ser realista, claro e, sobretudo, justo: não há em Portugal outro acontecimento político, social e cultural com a dimensão, a longevidade e a capacidade de mobilização da Festa do Avante!
O PCP e os seus militantes merecem, por isso, respeito. Respeito pela extraordinária capacidade de organização, pelo trabalho voluntário, pela dedicação e pela fidelidade à causa em que acreditam. Podemos discordar dessa causa — e eu discordo de muito — sem cairmos na pobreza intelectual de negar aquilo que está diante dos nossos olhos.
Também não podemos, a menos que sejamos anticomunistas primários ou soframos de conveniente amnésia histórica, esquecer o contributo dos comunistas portugueses para a liberdade que hoje todos usufruímos.
Desde 1921, ao longo de 105 anos, milhares de comunistas portugueses conheceram perseguição, clandestinidade, prisão, tortura e exílio. Lutaram contra a ditadura e defenderam, à sua maneira e segundo as suas convicções, os trabalhadores, os mais fracos e os mais desfavorecidos.
Podemos discutir a sua ideologia. Podemos combater politicamente muitas das suas propostas. Podemos até considerar erradas algumas das suas leituras do mundo.
O que não podemos é reescrever a História apenas porque ela não cabe nas nossas conveniências políticas.
A Festa do Avante! de 2026, que por razões ponderosas não pude visitar, merece por isso o meu aplauso.
E merece-o também por outra razão: porque a democracia não consiste em aplaudirmos apenas aqueles que pensam como nós. Democracia é precisamente aceitarmos que os outros pensem diferente, se organizem, discutam, cantem, façam política e celebrem livremente as suas convicções.
Na Quinta da Atalaia celebra-se o comunismo, certamente. Mas celebra-se também a cultura nas suas mais diversas expressões, portuguesa e internacional: a música, o teatro, o cinema, a literatura, as artes, o debate e o encontro entre povos e culturas. E talvez seja precisamente essa dimensão que ajuda a explicar por que razão a Festa há muito ultrapassou as fronteiras do próprio partido que a organiza.
Ali se encontram comunistas e não comunistas, militantes e simples visitantes. Uns vão pela política, outros pela música, pela cultura, pelo convívio ou simplesmente pela curiosidade.
E todos podem estar ali.
Isso também é liberdade.
É isso a democracia.
E cinquenta anos depois, continuo a poder dizer, sem ser comunista e sem qualquer constrangimento:
Viva a Festa do Avante!
Viva a Liberdade!
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