quinta-feira, 20 de outubro de 2011

CARTA (II) A PEDRO PPC no dia da morte do Coronel

Meu Caro PEDRO P.C.
Inesperadamente, estava eu a pensar nas maldades que patrocinas aos meus pobres e desgastados concidadãos, quando de repente surge a notícia da captura e depois, a morte do Coronel...
Ao longo de todo este dia de hoje, caíram em catadupa as mais diversas informações do acontecimento. Julgo mesmo que, sendo um "acontecimento mundial" como se pretende, sendo uma notícia "fantástica" como nos é retratada e "actuação democrática e maravilhosa" como outros a adjectivam, haverá boas razões para tanta divulgação e regozijo.
Mas não...
Não me regozijo pela morte de nenhum ser humano. Não me incute nenhuma felicidade saber que alguém morre.
Não sou David Cameron, cuja satisfação ficou patente nas ulteriores declarações, e deixou claro que a sua fantástica actuação bélica permitiu esta "façanha" tão cheia de moralidade e honra.
Não sou Sarko, que disputou imediatamente o protagonismo dos seus Mirage, no "heróico" ataque à coluna militar do Coronel em fuga.
Não sou aquele senhor Coreano (acho eu), que secretaria "geral...mente" a tão mística e promissora ONU.
Não serei certamente, Obama! Que defende e bem o seu Povo. Que defende e bem, a manutenção do parque automóvel norte-americano, com 8 e 12 cilindros cada um. Com 6 e 8000 centímetros cúbicos de cilindrada, que bem precisam de petróleo. Vamos ver o que dirá!?
Não sou, o lusitano Presidente da Comissão Europeia, que refere a morte de alguém como quem informa o resultado de um jogo de futebol. Felizmente não o fez em "portunhol" como ontem, aquele ridículo personagem.
Sabes meu bom Pedro, eu não tenho semelhança com nenhum deles. Sou incomparável. Não me comparo com tantas celebridades, moralistas, bem-fazejas, democratas, honestas, honradas e sempre auto-convencidas de praticar o bem. E que "bem"!!!
Sabes Pedro, eu não sou como esses. Não sou vendedor de armas, nem fabricante. Não me interessa o ópio do Afeganistão, nem o petróleo do Iraque, da Libya ou de Angola. Não lhes vendo nem quero vender nada. Nem comprar!
Não sou vendedor de sonhos, nem de almas.
Sabes Pedro, afinal o teu MNE, foi afinal esta tarde, o mais contido e aparentemente sábio nas declarações proferidas. Não se regozija, como eu, pela morte de nenhum ser humano.
À cautela lá foi dizendo qualquer coisa, tentando agradar, mas visìvelmente comprometido, lembrando-se talvez da Grande Tenda do Coronel, há tão pouco tempo montada nos jardins da sua residência oficial, no Forte.
Eu sou, como verás..."terra a terra" !
Como militar que me orgulho de ter sido, ainda hoje sinto a honra dos militares que nada devem às Pátrias, antes serão, isso sim... credores.
Já são muitos os que se regozijam nos últimos anos, pela morte de "ditadores" que ajudam a derrubar. Mas não mais me sairá da memória, a imagem de um "sacana" como Sadam Hussein, quando no patíbulo da forca, respondia impotente aos que o provocavam naquela hora final.
Não me permitiram guardar a imagem de outro, mais sacana ainda, mais tenebroso e cruel, que os Marines americanos, entregaram ao fundo do oceano.
Não me regozijo. Recolho-me em meditação com pesar, pelos males que esses mesmos seres humanos tiveram coragem de protagonizar e o fim que o destino lhes reservou.
Não entendo porém, que as brutalidades cometidas mereçam qualquer espécie de perdão.
Meu bom Pedro PC, há no entanto que admitir serem vários os entendimentos sobre este tema.
Não me conformo contudo que, tanta generosidade e determinação demonstrada, não seja de igual modo aplicada, para salvar os pobres da Somália e Eritreia, os da Nigéria e Libéria. No Uganda do Imperador Bokassa (protegido em França em troca de um punhado de diamantes). No Ruanda e na Serra Leoa... enfim. E porque não Portugal, que durante 40 anos sofremos a ditadura de Salazar. Nem uma ajudinha nos deram...
Porém, não posso terminar esta carta de hoje, sem te dizer meu caro Pedro, que há muitas ditaduras, não achas? Nos teus estudos sobre política, nunca te falaram nas "ditaduras democráticas" ? Nunca te falaram nas "democracias representativas" que não representam ninguèm ? Ah, já sei... só aprendeste essas coisas do Liberalismo e da Economia de Mercado, quer dizer, do saque aos que menos podem, para que se calem e não reclamem.
Pois é...pois é!!!
Sabes, isto é um problema. Parece que a "coisa" pode ficar preta doravante. A "malta" está mesmo farta. A "malta" já não aguenta mais. Por mais que a tenham despolitizado, sabes, graças ao Zuckerberg e a outros, a "malta" vai-se entre-ajudando, esclarecendo-se e unindo-se. È mau, dirás tu... e com razão! 
E se a "malta" desata para aí a fazer asneiras, a não pagar o que deve mais o que tu, estóicamente lhe impões? E se a "malta", começa a comparar os Sadam´s e os Kadhafi´s e as suas repressões, com as maldades da "democrácia" ?
Vemo-nos "gregos" Pedro!!! Olha que isto está a ficar feio !!!
No sábado passado, fui lá a S. Bento dar uma "forcinha" à malta. E era muita.
Não sei que te diga... afinal não precisas dos meus conselhos mas, como se dizia antigamente, "quem te avisa teu amigo é" !!!
Não querendo ensinar a "missa ao vigário", sempre te direi que pares um pouco... escuta a "malta", ouve-os com calma, atenta nas suas reflexões, não te deixes iludir por esse pessoal troykiano. Afirma-te com determinação.
Os teus, verdadeiros teus... SOMOS NÓS ! "TOTUS TUUS"
Não desejo escrever-te uma linha sequer, parecida com tudo o que escrevi em 5 de Junho último (O REQUIEM PARA JOSÉ), para o teu mui dilecto antecessor Pinto de Sousa - aliás, muito amigo, por acaso, do hoje falecido (morto em combate) Coronel  Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, que o Profeta o guarde ou o entregue a Alá.

Adeus e até breve

António Ventura