segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

FUI ONTEM VISITAR O NOSSO DOENTE !!!

Fui ontem visitar o nosso doente.
Encontrei-o muito debilitado. A doença parece não lhe dar tréguas. Acho que se espera a vinda de fora, de “grandes especialistas”. Não sei se virão. O nosso mais querido doente, não parece muito crente nas melhoras que lhe trarão. Confidenciou-me com lucidez, os males de que padece e que o levarão talvez mesmo, à manutenção da chamada “doença prolongada”. Está tão desiludido que, perante tantos tratamentos a que foi sujeito, sem que sentisse melhoras, a incredulidade apossou-se dele.
A minha longa visita permitiu-me verificar que ao nível dos membros, muito tolhidos, quase atingiu a inacção, chegando mesmo a admitir-se que a paralisia está para durar, a menos que um tratamento de choque lhe seja administrado. O coração continua a bater por esperança, numa sôfrega ânsia de melhoras, invocando sempre a boa recordação da saúde e coragem que teve durante quase toda a vida. Na longa conversa, reveladora de um muito aceitável equilíbrio mental, falou-me no seu desejo em voltar a comer as boas alfaces da sua horta, o peixe dos seus pescadores, a sardinha, o atum, o bacalhau. O seu estado de saúde, não lhe tirou a sua habitual bonomia e esperança. Não sendo aconselhável para a sua doença actual, chegou a ponto de me falar na boa vitela do Barroso e de Arouca, da boa carne de porco alentejano, e mais uns quantos vícios de boca, a que terá de se desabituar. Disse-me que quando melhorar, gostaria de viajar num dos seus barcos de cruzeiro, talvez até à Madeira, que com a segunda intempérie neste ano, muito o preocupa.
O nosso mais querido doente, está lúcido. Mas sem motivação. Retiraram-lhe as notícias sérias e injectam-lhe diariamente várias doses de informação que sabe bem serem vis mentiras. Sente grande revolta, dispõe-se a reagir…mas não sabe como. A inércia também está no seu diagnóstico. Fiquei sem saber se por cobardia ou pela sua prostração já tão manifesta.
No pessoal que o assiste, (ou devia assistir) não acredita. Tais foram os maus tratos a que o submeteram desde há tempos, ainda mal tinha recuperado da longa crise anterior. O nosso “doente”, não vê sinais de melhoras para breve.
Estava quase terminada a minha longa visita, e eis que fomos ambos surpreendidos por uma voz, que ainda no corredor, de forma decidida e autoritária anunciou – ““O doente PORTUGAL, da cama 2010, levante-se !!! Vai mudar para a cama 2011 dos “Cuidados Intensivos”. Vai a pé, não temos macas, nem maqueiros, não custa nada !!!””
Saí sorrateiro e pensativo, lamentando o estado crítico em que encontrei o nosso Amigo.
Só um milagre…talvez!!!

António Ventura



5 Outubro 2010