sexta-feira, 7 de abril de 2017

MALDITA PULHÍTICA... ABENÇOADO ALENTEJO

É com teimosia e grande obstinação que insisto. 
Insisto sempre, como se um chamamento de um Deus me queira tornar às raízes longínquas da terra, ao campo, às searas e ao calor que inferniza as gentes nos verões alentejanos e lhes enregela os ossos e a alma quente nos invernos de estalar. 
Insisto sempre.
E não me vejo parar, sem sequer duvidar ser o resto do meu caminho, o trilho que vai dar àquele campo largo com pequenas casas brancas de faixa azul, amarela ou "pó de sapato" de vez em quando, em pequenas cidades e vilas, em montes e aldeias.
Abençoada seja a terra, venturosa gente.
Na absurda insistência, deparo-me então com frequência, com o talvez maior dos nossos males. E enfrento-os, sofro com eles, revolto-me, e de novo regresso à vontade de ficar e fazer...
Não temos dúvida que, se há perto de quarenta e dois anos, poderíamos carpir, e chorar de outros males - bem piores -  desde então, a santa liberdade trouxe-nos a factura. Uma conta que não logramos pagar nunca.
Maldita pulhítica que nos arrasa, que nos tira do sério e nos esmigalha a coragem e o propósito. 
Somos assim... tais quais!
Há alguns meses, na minha querida Portalegre, num encontro de gente boa que se dispôs a discutir o futuro e o turismo que também é futuro... e muito, escutaram-se as palavras de António Ceia da Silva, Presidente da Turismo do Alentejo - ERT que, a certo ponto da sua intervenção, muito apreciada, disse "... somos assim... fazemos noventa e nove coisas boas e uma mal. Somos criticados por essa, nunca apreciados pelas noventa e nove...". Somos assim, pois então. 
E vamos andando, derretendo vontades, excluindo actores, queimando projectos e matando o tempo que é pouco, para lograrmos alcançar, senão a felicidade apregoada, pelo menos o progresso, desenvolvimento e bem-estar numa terra bela, de cantes e encantos que, extasia e deslumbra forasteiros e nos arrebata os corações. E vamos andando...tais quais!
" Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que não os acheis". Que perfeitas e certeiras palavras do Padre António Vieira, tão propositadas se aplicadas no tempo de hoje.
E somos assim.
As vaidades, velhos e suspeitados rancores e o "não sei quê" que, não se explica nem nos é explicado, despeja-se num caudal turvo de incoerência, limitador de crescimento, de cooperação e vontade colectiva de crescer bem. 
E vamos andando.
Recusando o propósito, ignorando o saber, cultivando a incompetência... desprezando os nossos.
O que aparentemente se faz crer, ser o acolhimento caloroso ou pelo menos formal, passa ràpidamente, sabe-se lá porquê, ao quase desdém e incredulidade pela fascinação dos outros, que tais.
E fica a expectativa de que os "tais", se auto condenem ao silêncio perpétuo.
Somos assim.
Mas desentranhando as recordações, não se compreende esta nossa postura e desencanto, de tudo duvidando, a todos criticando do alto do nosso umbigo grande.
Maldita pulhítica.
E bordamos de encanto os sonhos e alinhavamos a vida que nos escorre pelo fio que, passa finamente na agulha do tempo.
E moldamos o barro do nosso encantamento. 
E decoramo-lo preciosamente, cada peça única, como este nosso povo alentejano. Único é o Alentejo.
E vemo-nos na nossa modorna, enfadados de tanto olhar o campo sem ver ninguém. Entediados, enfastiados sem saber que ficaremos sózinhos.
E olhamos de novo o campo, escutamos o balido do gado e lá ao fundo na estrada, vai um carro com mais um que decidiu abalar! Somos assim, tais quais...
E não nos juntamos, reunimos, entendemos,
no solidário interesse da nossa terra e todos nós. 
Maldita pulhítica.
Abençoado Alentejo.

António Ventura, 7Abril2017

presente texto está redigido pelo signatário, em língua portuguesa, em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo chamado Acordo Ortográfico.








quarta-feira, 29 de março de 2017

UExit - O que a nomenklatura não entendeu é que estamos fartos.

Roma, 25 de Março de 1957 ou a Roma sitiada em 25 de Março de 2017

O que a nomenklatura não entendeu é que estamos fartos. E isso é mau (?) perguntar-se-á... talvez sim, talvez não.

Verdadeiramente, estes quinhentos milhões que um dia decidiram seguir juntos no seu futuro económico, social, fraterno e próspero, mal sabiam que, todos estes simples e humanos interesses comuns poderiam ficar, em sessenta anos, à mercê de uma secta que, inábilmente se apoderou das suas vontades, desígnio e futuro.

Não será difícil entender que os europeus, todos nós que nos juntámos, confiadamente ao longo de seis décadas, ambicionámos olvidar os conflitos e as diferenças, preparando e projectando o futuro de paz e progresso, conjuntamente. Enfrentando os riscos e as vantagens da globalização, estes quinhentos milhões de seres, optaram como indispensável a União, como elemento fundamental, aglutinador, para fazer frente aos desafios, aos perigos e ameaças de um mundo novo, cada vez mais desigual, egoísta e perigoso, com afrontamentos diversos ao longo dos mais dos treze mil quilómetros das fronteiras externas.

Mas a UE da solidariedade, implicou também a ajuda a povos, outros, que infelizmente não foram poupados à ambição, à violência apenas motivada pela sôfrega ganância das suas matérias primas, ou do interesse geo-estratégico de alguns poderes.

Dir-se-á que se repete, que se repetiu a história, particularmente ao longo das duas últimas décadas, o assalto a territórios cujo subsolo ou interesses políticos e económicos motivaram a intromissão externa. 

Finda a guerra fria, rápidamente os habituais guerreiros da democracia se levantaram em armas para acudir aos infelizes povos que, estando em paz, viviam sob regimes mais ou menos autoritários e sobretudo ditatoriais.

Mas a democracia impunha-se.

E, à pala, de umas quantas mentiras, que por insistentes, passaram a verdades, pelo menos temporáriamente, impôs-se a democracia pelo cano dos obuses, pelo julgamento kafkiano e sequente enforcamento de uns, e de outros, pelo bárbaro assassinato em plena rua, em fuga, pelas hordas revolucionárias de uma qualquer Primavera.

Aqueles que meses antes eram recebidos em diversos Estados desta nossa UE, com pompa e circunstância, com tendas montadas junto ao mar, com recepções elegantes, até carregadas de servilismo por parte dos anfitriões, servindo chá e salamaleques, ou melhor dizendo "salam'alaik", foram rápidamente esquecidos porque, se já não serviam, deitavam-se fora.

E foi assim.

E, foi também assim vista a bela Roma eterna e mãe que, em 25 de Março de 2017, se encontrava fechada, sitiada, desconfiada que algo estranho ou perigoso pudesse ocorrer e estragar a premonitória "festa" dos convivas cujos rostos sérios, de apreensão e tristeza, apenas auguravam o fim triste que se avizinha.

Mas não obstante, firmaram, selaram com as suas decisivas canetas, mais um contrato de boa continuidade e esperança, logo após os fastidiosos discursos de Tusk e Juncker, ambos insistindo na boa unidade, na manutenção e salvaguarda das elites a que pertencem e não pretendem deixar de pertencer. Nem permitir qualquer intromissão desses quantos milhões, de quem se servem mas cujas reprovações não consentem. 

E Roma continuou o seu dia.

Para trás, deixou a nomenklatura a franqueza das suas próprias declarações de 5 de Março...

"Nós agiremos concertadamente, se necessário com ritmos diferentes e com uma intensidade diferente, mas avançando na mesma direcção, como temos feito no passado, conforme os Tratados, mas sempre deixando a porta aberta a todos aqueles que desejem juntar-se a nós mais tarde. A nossa união é una e indivisível."

Indivisível ?!... sim. A nomenklatura NÃO SE DIVIDE.

Não se divide nem entende, jamais entenderá porque estamos fartos.

Estamos fartos, enjoados, we are all fed up... we had enough. Nous en avons assez...On en a marre...

Vamos então ser sérios. 

Não entende que, quinhentos milhões de seres, quase todo um continente, berço de todo o engenho humano ou quase todo, não quer mais ficar à mercê de um bando, tantas vezes ridículo de autocratas, funcionáriozecos presunçosos e convencidos de possuir a ciência e a verdade das coisas, que se abastecem de riqueza e serviços. 

Ignorando as gentes, mentindo, ofendendo, prometendo, falseando, ameaçando e destruindo tudo o que é, foi o grande desígnio de um raro e histórico conjunto de povos e nacões, que se quiseram diferentes, porém determinados a ficar unidos em progresso e em paz.

Não entendem. Jamais entenderão o artº 50º do Tratado de Roma. Temos pena... muita pena.

António Ventura
Roma, 29 de Março de 2017













sábado, 4 de fevereiro de 2017

A Conferência de Imprensa e os Direitos, Liberdades e Garantias

Ninguém que me conheça ou me haja lido, nas prosas modestas que alguma vez vim debitando, ignora as minhas convicções políticas. Talvez mesmo, auto-caracterizando-me muitas vezes como um perigosíssimo radical de esquerda. É assim. Fruto de muita vida vivida, de um olhar que procuro atento, isento, descomprometido e sempre tentando o uso da mais clara honestidade moral e intelectual, sem origens nessas ondas é bem certo, a não ser a adolescência passada na “sinistra rive gauche” de que me orgulho.

Ninguém que me haja lido, por aqui ou em http://desventuralusitana.blogspot.pt/ lá pelos idos de 2011, poderá ignorar quanto crítico fui, quanta crítica me mereceu “José”.

Era tanta a vontade de lhe dizer coisas que, em época mais tormentosa lhe escrevinhei as “cartas a José”, satisfazendo assim o ego, realizando dessa forma a minha vingança de lhe botar na cara as minhas preocupações. Lançando-lhe para cima a raiva e o sentimento do leão ferido que quase já não se levantava.

E o tempo mata a lembrança. O tempo mata, esquece, perdoa, vinga, contempla e até honra alguns aqueles que alguma vez atravessaram a ponte ao mesmo tempo que nós.

Foi assim com José. Com ele, juntos, atravessámos um longo período da minha e da sua vida. Da nossa vida colectiva também.

De tantas que à época lhe disse, escrevendo sem que, provavelmente me haja lido sequer uma vez, muitos milhares mais lhe haveria de ter dito.

Fica-me porém o reconhecimento dos muitos milhares de feitos, históricos, representação política elevada e decisões que em muito alteraram a nossa vida nacional para sempre. Ninguém é perfeito.

O seu legado não está porém isento das culpas que sempre carregam qualquer sujeito e a sua actuação política. 

José está para durar…

Não. Não é o populismo que sempre o caracterizou que, regressando agora aos écrans das televisões, me fazem mudar de opinião.

Ele é um personagem que quer queiramos quer não, marcou e continuará a marcar a imagem política do Portugal moderno. Em crise permanente sim, em crises sistémicas desde há mais de um século. Mas a sua notoriedade, capaz de catalizar, mobilizando toda a comunicação social em qualquer momento que queira, decida explicar, essa é inquestionávelmente indubitável.

Foi assim em 3 de Fevereiro de 2017, ontem exactamente na conferência de imprensa.

E se a notoriedade, é inquestionável, também o foi, qual Trump Lusitano, surpreendentemente alegórica a discriminação em directo de um “jornalista” de um certo canal que não teve direito a perguntar.


José não teve direito a “directo” nas perguntas e respostas dos jornalistas, na conferência de imprensa. Uma lástima. A intoxicação está em todo o ar que respiramos. 

Não merecemos mais nem melhor.

Talvez porque “há outros Trumps ocultos, maquiavélicos, e que só não são tão perigosos porque não são presidentes dos EUA”.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

Muito obrigado por não nos aplicarem os merecidos castigos, leia-se, SANÇÕES !!!!



Tivémos hoje a sorte de não recebermos o devido castigo. 
Obrigado aos nossos professores, tutores, orientadores, donos, curadores, patronos, protectores, conselheiros, defensores...
Não fora a vossa cuidada e sempre atenta compreensão, o vosso permanente esforço de nos ajudar, a vossa insistência em nos levar pelo "bom caminho"... 
Não fora a vossa benevolência, tão largamente manifestada, nas mais elementares atitudes em defesa da Europa e dos Europeus, 
Não fora a vossa permanente e douta atenção aos nossos desvios materiais, morais, direccionais (mais à esquerda, mais à direita) e laborais, insistindo constantemente em nos fazer compreender que somos uns mandriões, uns gastadores, perdulários, "langões" (como se diz no nosso Alentejo) e por isso, terão de estar atentos.
Não fora sabermos, toda a gente sabe que, só e apenas pugnam pela estabilidade, solidariedade, dignidade, déficits equilibrados aqui para o Sul, bem estar e felicidade de todos os Europeus, sendo uns mais iguais que outros...
E estaríamos irremediàvelmente perdidos.
A todos os engenhosos supra inteligentes membros dessa organização que insistem em denominar "União" Europeia, a todos os Senhores Comissários, devidamente eleitos democráticamente, a todos os Presidentes de tudo e mais alguma coisa, a todos os Técnicos reputadíssimamente qualificados (quem duvida??), que nos permitem estes tão gravosos desvios deficitários. A todos os que nos vêm insultando constantemente, (para nosso bem, está claro) menorizando-nos enquanto Povo digno e com história comprovada, provocando instabilidade e as notícias na mídia mais "interessada" ... a todos o NOSSO OBRIGADO.
Mais uma vez escapámos ao castigo. Mas as "orelhas de burro" tão bem recortadas, em papel de brilho ou cartolina rija, essas... ninguém no-las tira. Porque merecemos.
Somos uma espécie de jumento, qual azêmola presunçosa, muar teimoso ou mula pretensiosa.
Merecemos bem o castigo.
As orelhas de burro ou as admonendas, os frequentes reproches, os fartos raspanços ou responços não os podemos evitar. É que nós não entendemos o que tão pedagógicamente nos ensinam... Chiça que é demais !!!
Ninguém honesto, sério, inteligente, responsável, atinado e bom, poderá perdoar constantemente esta malta que só quer é "festa". O Benfas e o Sportem, o Pinto e o Costa, o Rock no rio e o da Zambujeira em Agosto, basta, basta... Os Senhores Comissários com nomes tão simples mas de tão boa origem, Timmermans, Ansip, Mogherini, Sêfcovic, Dombrovskis, Katainen, Oettinger, Malmstron, Andriukaitis, Moedas ou Bienkowska, competentemente não podem aguentar esta rambóia. E muito bem!
Porque se eles próprios, sendo como são, (mas não parecem ser) económicos, metódicos, cuidadosos e zelosos da boa economia, das finanças e do bem estar, não podem nem devem suportar estes desmandos cá da malta.
Nem Kostas, perdão ... Costas (Kostas é o Mitroglou), nem Pedros, são herdeiros merecedores da herança de um qualquer Durão. Nem pensar.
Portanto, haverá que ficar pobrezinho mas obediente, respeitar quem manda, porque manda bem, enfim, um bom comportamento requere-se e todos iremos ver a Grande Europa forte, unida, crescida, solidária, humana... "e pluribus unum"...
Assim, seremos sempre perdoados e não sancionados, com as orelhas de burro, em papel de brilho ou cartolina rija. Continuaremos porém, a ser burros.
Mas pensando melhor... VÃO-SE FODER !!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Meu caro Pedro
Certamente estranhaste, a minha ausência... as minhas cartinhas.
Nada de especial. Apenas uma preguiça enorme, de mais um que cansaste e não páras de querer derrotar.
Mas olha que ainda cá ando e preparado para te dar a luta que tanto mereces e parece tanto desejares.
Tu, continuas na tua lenga lenga, como se nada de grave se esteja a passar. És valente, tenho de reconhecer. Lutas contra tudo e contra todos. Pões o "pessoal" todo em polvoró, uns contra os outros, os privados contra os públicos, os velhos contra os novos, os ausentes contra os presentes, os professores contra os alunos e os alunos, tão jovenzinhos, parecem começar agora a ficar contra ti. É que a tua voz, que treinavas ao espelho quando tinhas a idade deles, augurando já à época o alto caro que irias conseguir, já não os convence.
Noto, quando te vejo que estás a demonstrar cansaço. Cansas-te e cansas-nos!!!
Não evitas um só momento em lutar contra os "moinhos de vento" qual Quixote de Cervantes. Vês inimigos em toda a parte e nem por um momento, sossegas, olhas para nós, porque só nós te poderemos ajudar.
Mas não, cansaste-nos e estamos fartos. Queremos ver-te pelas costas depressa. Nem nos importamos que recebas também um Grande Colar de uma qualquer Ordem. Afinal, se o decisor dessa entrega pensar bem (como não é costume), não hesitará em te condecorar. Tu és apenas o seguidor, o finalizador da sua (dele) obra política de desbaratar tudo o que nos restava. Onde vês oiro... perdes-te. Tudo vendes, tudo ofereces numa sôfrega ânsia, parece, de teres tempo para tudo derreteres, deixando-nos à míngua.
Depois de ti, nada de pé restará, ou melhor dizendo, depois de ti, nada nos restará que valha uns cobres. Ficaremos então, como desejas - pobres, indigentes, maltrapilhos e à mercê da chacota de todos e de tudo.
Hoje, preocupas-me mais do que ontem e, quiçá, amanhã preocupar-me-ás mais do que hoje.
Vêm aí os russos, e o Xanana por quem tanto nos apoquentámos, parece hoje, rir-se na tua cara, por te achar um imbecil, sem "cheta". Os russos, não te apoquentes, porque apenas te ignoram e te consideram uma "coisinha" sem qualquer interesse ou valia. Para os enfrentares, como devias, deixa os teus funcionários ministeriados, que são ainda piores que tu. Deixa-os governar essa "crise", deixa-os vomitarem as bacoradas do costume e pedirem desculpas públicamente a seguir. Entrega-lhes também a crise dos "Magistrados de Lorosae" e eles se ocuparão de nos deixar mais pobres ainda, de espírito e vergonha que não têm competência para evitar.
Pedro, continuar a escrever-te hoje, aqui, levar-me-ia a extravasar a linguagem e acho que não devo.
Vou sim, vou descansar. Mas antes, passo pelo espelho e treino umas "prosápias", leio uns textos e olho-me nele, para ver se fico bem, se devo apostar em mudar esta má língua e esta prosa que cada vez que penso em ti, mais me dá vontade de exacerbar...
Até breve Pedro.



terça-feira, 20 de maio de 2014



Resgate de Portugal foi para salvar banca alemã

O economista britânico Philippe Legrain diz, numa entrevista ao Público, que o sector bancário dominou os governos dos países e as instituições da zona euro e, por isso, quando eclodiu a crise, só se preocuparam em salvar os bancos. O ex-conselheiro económico de Durão Barroso entre 2011 e fevereiro deste ano defende a reestruturação dos bancos e o perdão da dívida portuguesa.

E considera “uma anedota” a actuação dos representantes da Comissão Europeia na crise. A Comissão Europeia está desligada da realidade.

Philippe Legrain acaba de publicar o livro “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess” (Primavera europeia: Por que as nossas economias e políticas estão um caos). Na entrevista, afirma que os governos europeus “puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos”, e que “há uma relação quase corrupta entre bancos e políticos”.

O principal problema era a dívida privada
No caso de Portugal, afirma, “o principal problema era a dívida privada. Antes da crise, a dívida pública era sensivelmente a mesma que na Alemanha – 67/68% do PIB – mas o grande problema que não foi de todo resolvido era a dívida privada que estava acima de 200% do PIB”.
Para o economista, este é que era o problema real, “mas que os portugueses não enfrentaram, a UE e o FMI não ligaram, só se concentraram na redução da dívida pública. Por isso, como não resolveram os problemas reais do sector bancário, não resolveram o problema da dívida privada, só se concentraram na consequência, que foi o aumento da dívida pública”.
Há quem pense que o que eu digo é uma loucura, alegando que os mercados estão a emprestar a Portugal a taxas muito baixas e que por isso a crise acabou, blá blá, blá, mas isso simplesmente não é verdade
O resultado desta decisão, na sua opinião, foi uma “profunda, longa e desnecessária recessão económica”. E a crise está longe de estar resolvida.
“Há quem pense que o que eu digo é uma loucura, alegando que os mercados estão a emprestar a Portugal a taxas muito baixas e que por isso a crise acabou, blá blá, blá, mas isso simplesmente não é verdade. Isso também aconteceu nos anos da bolha [financeira], antes de 2007, em que os mercados também emprestavam de forma incrivelmente fácil, o que não significava que não havia problemas. Neste momento tem havido entrada de liquidez, que está a tapar os problemas subjacentes, mas essa liquidez pode inverter-se se o BCE, como penso que vai acontecer, nos desiludir da ideia de que poderá haver um Quantitative Easing (injecção de liquidez)”.

Troika desempenhou um papel colonial em Portugal
Para Philippe Legrain, “o que começou por ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar os bancos, acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa entre países credores e países devedores”. Nessa crise, aponta, as instituições europeias funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos devedores.
“Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas”.
Esta instituição (a Comissão Europeia) é uma redoma completamente desligada da realidade.
O economista considera que o essencial da responsabilidade da parte orçamental dos programas foi da Comissão Europeia, que fez projeções completamente falsas. “Dá vontade de rir quando se comparam as projeções de 2011 com os resultados de 2013, é uma anedota. Isto resultou em parte da incompetência das pessoas responsáveis, mas há outro problema que é o da responsabilidade democrática. Olli Rehn e os seus altos funcionários decretam que o desemprego vai ser 12% mas se afinal é 20%, dizem 'ah, ok, temos de mudar aqui este número na folha de cálculo'. Ou seja, não estão a lidar com a realidade. Esta instituição é uma redoma completamente desligada da realidade”.

Portugal está em pior estado do que estava no início do programa
O ex-conselheiro de Durão Barroso é particularmente crítico dos resultados do programa português: “Basta olhar para as previsões iniciais para a dívida pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do que estava no início do programa”.
O economista defende para Portugal “uma reestruturação dos bancos, um perdão de dívida tanto pública como privada, é preciso investimento do Banco Europeu de Investimentos"

É destrutivo uma Alemanha quase-hegemónica
A orientação política seguida, afirma, veio da Alemanha. “E a Alemanha aconselhou mal, em parte por causa da forma particular como os alemães olham para a economia, por causa da ideologia conservadora, e porque agiu no seu próprio interesse egoísta de credor em vez de no interesse europeu alargado. A UE sempre funcionou com a Alemanha integrada nas instituições europeias, mas aqui, a Alemanha tentou redesenhar a Europa no seu próprio interesse. É por isso que temos uma Alemanha quase-hegemónica, o que é muito destrutivo”.
O economista defende para Portugal “uma reestruturação dos bancos, um perdão de dívida tanto pública como privada, é preciso investimento do Banco Europeu de Investimentos (BEI), dos fundos estruturais da UE e através dos ganhos de um perdão de dívida que reduza os pagamentos dos juros”.

Não é verdade que os salários precisavam de ser reduzidos

Para Philippe Legrain, “não é verdade que os aumentos salariais no sul da Europa foram excessivos nos anos pré-crise. Em termos de peso no PIB, os salários até caíram. Por isso não é verdade que esta foi a causa da crise, não é verdade que os salários precisavam de ser reduzidos. Só que esmagar salários provoca o colapso do consumo, agrava a recessão e agrava o peso da dívida, porque se os salários baixam, é mais difícil pagá-la. Tudo isto é baseado no erro de conceção alemão de que os custos salariais são uma coisa má e têm de ser reduzidos, quando, de facto, deveriam ser tão altos quanto possível, desde que justificados pela produtividade”.
OS INSTRUMENTOS ECONÓMICOS EXISTEM MAS A OPINIÃO POLÍTICA DOMINANTE PROÍBE O FIM DA CRISE. 


Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, apela ao fim dessa corrente austeritária, sacrificial e assassina de empregos. Ana Sá Lopes leu e comenta assim.
Nestes últimos três anos caiu-nos uma depressão em cima da cabeça, e o que fizemos? Procurámos culpados. O "viver acima das nossas possibilidades" e "os malefícios do endividamento" são duas cantigas populares dos últimos anos. E, no entanto, antes de a crise ter rebentado na América e de se ter propagado à Europa, o nível de endividamento de alguns dos países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, tinha vindo a reduzir-se. Os gráficos estão lá e mostram que sim (como mostram que o gigante alemão também está fortemente endividado). Mas porque é que as pessoas não querem acreditar nisto? Nem sequer apreender o facto de terem sido "praticamente todos os principais governos" que, "nos terríveis meses que se seguiram à queda do banco de investimento Lehman Brothers, concordaram em que o súbito colapso das despesas do sector privado teria de ser contrabalançado e viraram-se então para uma política orçamental e monetária expansionista num esforço para limitar os danos"? A Comissão Europeia e a Alemanha estavam "lá". E, de repente, tudo mudou. 

Uma das maiores dificuldades de lidar com esta crise é, em primeiro lugar, o facto natural de tanto o cidadão comum como Jesus Cristo não perceberem nada de finanças, a menos quando lhe vão ao seu próprio bolso (ou perde o emprego). A outra é o poder da narrativa do "vivemos acima das nossas possibilidades", aquilo a que Krugman chama a "narrativa distorcida" europeia , "um relato falso sobre as causas da crise que impede verdadeiras soluções e conduz de facto a medidas políticas que só pioram a situação". Krugman ataca "uma narrativa absolutamente errada", consciente de que "as pessoas que apregoam esta doutrina estão tão relutantes como a direita americana em ouvir a evidência do contrário".

Três quartos do livro-manifesto "Acabem com esta crise já" é dedicado aos Estados Unidos, pátria de Krugman. Mas tendo em conta o nosso "interesse nacional", centremo-nos no que diz sobre a Europa.

Krugman refuta a explicação popular e maioritária sobre a situação actual na Europa - países sob tutela de troika e pedidos de resgate à média de dois por ano. "Eis, então, a Grande Ilusão da Europa: é a crença de que a crise da Europa foi essencialmente causada pela irresponsabilidade orçamental. Diz essa história que os países europeus incorreram em excessivos défices orçamentais e se endividaram demasiado - e o mais importante é impor regras que evitem que isto volte a acontecer".

Krugman aceita que a Grécia (e Portugal, "embora não à mesma escala) incorreu em "irresponsabilidade orçamental", mas recusa a "helenização" do problema europeu. "A Irlanda tinha um excedente orçamental e uma dívida pública reduzida na véspera do deflagrar da crise (...) A Espanha também tinha um excedente orçamental e uma dívida reduzida. A Itália tinha um alto nível de endividamento herdado das décadas de 1970 e 1980, quando a política era realmente irresponsável, mas estava a conseguir fazer baixar de forma progressiva o rácio do endividamento em relação ao PIB ". Ora um graficozinho do FMI demonstra que, enquanto grupo, "as nações europeias que se encontram actualmente a braços com problemas orçamentais conseguiram melhorar de forma progressiva a sua posição de endividamento até ao deflagrar da crise". E foi só com a chegada da crise americana à Europa que a dívida pública disparou. Explicar isto aos "austeritários" é uma tarefa insana. Diz Krugman: "Muitos europeus em posições-chave - sobretudo políticos e dirigentes na Alemanha, mas também as lideranças do Banco Central Europeu e líderes de opinião espalhados pelo mundo das finanças e da banca - estão profundamente comprometidos com a Grande Ilusão e nada consegue abalá-los por mais provas que haja em contrário. Em consequência disso, o problema de responder à crise é muitas vezes formulado em termos morais: as nações estão com problemas porque pecaram e devem redimir-se por via do sofrimento". Ora é esta exactamente a história que nos conta o governo e que é, segundo Paul Krugman, "um caminho muito mau para se abordar os problemas que a Europa enfrenta".

Ao contrário do que muita gente possa pensar, Krugman não é um perigoso socialista. E, céus, até defende a austeridade (alguma, mas não esta). Vejam como ele explica a crise espanhola, que considera a crise emblemática da zona euro: "Durante os primeiros oito anos após a criação da zona euro a Espanha teve gigantescos influxos de dinheiro, que alimentaram uma enorme bolha imobiliária e conduziram a um grande aumento de salários e dos preços relativamente aos das economias do núcleo europeu [Alemanha, França e Benelux]. O problema essencial espanhol, do qual derivam todos os outros, é a necessidade de voltar a alinhar custos e preços. Como é que isso pode ser feito?". O Nobel explica: "Poderia ser feito por via da inflação nas economias do núcleo europeu. Imagine-se que o BCE seguia uma política de dinheiro fácil enquanto o governo alemão se empenhava no estímulo orçamental; isto iria implicar pleno emprego na Alemanha mesmo que a alta taxa de desemprego persistisse em Espanha. Os salários espanhóis não iriam subir muito, se é que chegavam a subir, ao passo que os salários alemães iriam subir muito; os custos espanhóis iriam assim manter-se nivelados, ao passo que os custos alemães subiriam. E para a Espanha seria um ajustamento relativamente fácil de fazer: não seria fácil, seria relativamente fácil".

Ora, esta maneira "relativamente fácil" de resolver a crise europeia tem estado condenada (vamos ver o que se segue ao novo programa de compra de dívida do BCE, criticado pelo presidente do Bundesbank) pela irredutibilidade alemã relativamente à inflação, "graças às memórias da grande inflação ocorrida no início da década de 1920". Krugman lembra bem que estranhamente "estão muito mais esquecidas as memórias relativas às políticas deflacionárias do início da década de 1930, que foram na verdade aquilo que abriu caminho para a ascensão daquele ditador que todos sabemos quem é".

O que trama as nações fracas do euro (como Espanha e Portugal) é, não tendo meios de desvalorizar a moeda - como fez a Islândia no rescaldo da crise com sucesso - estão sujeitas ao "pânico auto--realizável". O facto de não poderem "imprimir dinheiro" torna esses países vulneráveis "à possibilidade de uma crise auto-realizável, na qual os receios dos investidores quanto a um incumprimento em resultado de escassez de dinheiro os levariam a evitar adquirir obrigações desse país, desencadeando assim a própria escassez de dinheiro que tanto receiam". É este pânico que explica os juros loucos pagos por Portugal, Espanha e Itália, enquanto a Alemanha lucra a bom lucrar com a crise do euro - para fugir ao "pânico" os investidores emprestam dinheiro à Alemanha sem pedir juros e até dando bónus aos alemães por lhes deixarem ter o dinheirinho guardado em Frankfurt.

Se Krugman defende que "os países com défices orçamentais e problemas de endividamento terão de praticar uma considerável austeridade orçamental", defende que para sair da crise seria necessário que "a curto prazo, os países com excedentes orçamentais precisam de ser uma fonte de forte procura pelas exportações dos países com défices orçamentais".

Nada disto está a acontecer. "A troika tem fornecido pouquíssimo dinheiro e demasiado tardiamente" e, "em resultado desses empréstimos de emergência, tem-se exigido aos países deficitários que imponham programas imediatos e draconianos de cortes nos gastos e subidas de impostos, programas que os afundam em recessões ainda mais profundas e que são insuficientes, mesmo em termos puramente orçamentais, à medida que as economias encolhem e causam uma baixa de receitas fiscais". 

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