ELEVADOR DA GLÓRIA — A CULPA MORRE SOLTEIRA, A VERGONHA FICA
Passou um ano sobre a tragédia do Elevador da Glória. Dezasseis mortos, a
maioria estrangeiros, dezenas de feridos e uma cidade envergonhada perante o
mundo. Um ano depois, continuamos à espera de saber quem responde.
Sabemos, porém, algumas coisas.
Sabemos que o cabo instalado não respeitava as especificações e não estava certificado para transporte de pessoas.
Sabemos que houve falhas na aquisição, aceitação, manutenção e
fiscalização.
Sabemos que apareceram trabalhos dados como executados que nem sempre
correspondiam ao que realmente tinha sido feito.
E sabemos que a Carris é uma empresa municipal, propriedade da Câmara
Municipal de Lisboa.
Mas, pelos vistos, não é propriedade de ninguém quando chega a hora de
assumir responsabilidades. Carlos Moedas continua tranquilamente sentado na
cadeira de presidente da Câmara, como se a responsabilidade política fosse uma
extravagância dos tempos antigos.
Não lhe atribuo a responsabilidade técnica pelo acidente. Para isso existem
técnicos, peritos e tribunais.
Atribuo-lhe uma coisa muito mais simples:
responsabilidade política.
Ou também essa foi subcontratada? Porque é extraordinária esta moderna arte
de governar: inauguram-se obras, cortam-se fitas, fazem-se discursos e
recolhem-se os louros. Quando acontece uma tragédia, aparecem os técnicos, os
pareceres, os inquéritos, as auditorias e os intermináveis “apuramentos”.
O poder tem sempre pai.
A culpa é que continua órfã.
E agora, um ano depois, Carlos Moedas aparece
muito compungido a inaugurar um memorial às vítimas.
Com aquela sua cara de sacristão, quase de beato
noviço, presta homenagem aos mortos enquanto continua sem retirar da tragédia a
mais elementar consequência política. Há qualquer coisa de profundamente
indecoroso nesta encenação.As vítimas não precisam que lhes inaugurem pedras.
As famílias precisam de respostas.Precisam de
saber quem comprou, quem aprovou, quem instalou, quem fiscalizou, quem não
fiscalizou e quem permitiu que tudo isto acontecesse. E Lisboa precisa de saber
por que razão é necessário esperar até 2027 para conhecer conclusões
definitivas sobre uma tragédia ocorrida em 2025.
Dezasseis pessoas morreram num equipamento
municipal.Onze eram estrangeiras.
Vieram conhecer Lisboa e algumas regressaram aos
seus países num caixão. Perante isto, não consigo compreender tanta cerimónia e
tão pouca vergonha política.
O memorial pode perpetuar a memória das vítimas.Mas
não pode servir para lavar a consciência dos responsáveis.
As flores murcham. As pedras envelhecem. Os
discursos esquecem-se.
O que fica é uma pergunta muito simples:
Depois de dezasseis mortos, quantos seriam
necessários para alguém assumir responsabilidade política?
Em Portugal, pelos vistos, ainda não chegámos ao número. A culpa continua solteira. E a vergonha, essa, é de todos nós.
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