Morreu Narana Coissoró.
Estive e estou politicamente numa área diferente — e em muitos aspectos contrária — àquela em que Narana Coissoró fez o seu percurso. Nunca foi, portanto, a proximidade partidária ou ideológica que me poderia aproximar dele. Mas é precisamente por isso que não posso deixar de reconhecer a sua dimensão, a sua independência e o lugar que conquistou na vida democrática portuguesa. Há adversários políticos que merecem respeito. Narana Coissoró foi, para mim, um deles e merece hoje o louvor póstumo que lhe é devido.
E, como é costume neste país, não
faltarão agora os elogios, as homenagens e as palavras solenes daqueles que
descobriram todas as suas qualidades depois de ele já não estar cá para as
ouvir.
Talvez por isso seja conveniente
recordar o que aconteceu quando estava vivo.
Narana Coissoró dedicou décadas à vida
pública portuguesa. Foi deputado, líder parlamentar do CDS durante 13 anos,
vice-presidente da Assembleia da República e professor universitário.
Atravessou os bons e os maus tempos do seu partido e nunca foi propriamente
conhecido por dobrar a opinião ao sabor das conveniências.
Em 2012, já com 80 anos, veio
publicamente dizer que os cortes então aplicados tinham reduzido os rendimentos
das suas pensões de cerca de 7.000 euros para pouco mais de 3.000, além dos
cortes nos subsídios de férias e de Natal. Acabou por colocar à venda a casa
onde vivia no Monte Estoril. “A crise bateu-me à porta”, disse.
E deixou outra reflexão bem mais
incómoda: tinha dedicado a vida à causa pública e não seguira certos “caminhos
paralelos” que permitiram a outros sair da política com um confortável
pé-de-meia.
Convém também dizer tudo: Narana recebia
duas pensões e tinha requerido a subvenção vitalícia a que legalmente tinha
direito. Não era um indigente e seria intelectualmente desonesto apresentá-lo
dessa maneira.
Mas igualmente desonesto é apagar aquilo
que aconteceu e aparecer agora a cobrir de elogios um homem que, quando ainda
podia ouvi-los, se queixava de estar esquecido, de não pertencer a lóbis nem a
“obediências secretas” e de já poucos quererem ouvir aquilo que tinha para
dizer. E tinha, sempre teve tanto.
Portugal tem esta extraordinária
capacidade: é frequentemente económico no reconhecimento dos vivos e pródigamente
generoso na homenagem aos mortos.
Depois aparecem os discursos, os
elogios, as fotografias, as condolências e a inevitável afirmação de que
“Portugal perdeu uma grande figura”. E perdeu, sim.
Mas talvez fosse melhor aprendermos a
reconhecer e a respeitar as grandes figuras enquanto estão vivas — mesmo, ou
sobretudo, quando pensam politicamente de maneira diferente da nossa.
Porque a democracia também se mede pela
capacidade de reconhecer dignidade, inteligência e carácter em quem está do
outro lado. É isso que eu faço!!!
Narana Coissoró merece esse
reconhecimento.
Que descanse em paz.
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