sábado, 29 de agosto de 2026

NARANA COISSORÓ - PARTIU MAIS UM HOMEM BOM

Morreu Narana Coissoró.

Estive e estou politicamente numa área diferente — e em muitos aspectos contrária — àquela em que Narana Coissoró fez o seu percurso. Nunca foi, portanto, a proximidade partidária ou ideológica que me poderia aproximar dele. Mas é precisamente por isso que não posso deixar de reconhecer a sua dimensão, a sua independência e o lugar que conquistou na vida democrática portuguesa. Há adversários políticos que merecem respeito. Narana Coissoró foi, para mim, um deles e merece hoje o louvor póstumo que lhe é devido.

E, como é costume neste país, não faltarão agora os elogios, as homenagens e as palavras solenes daqueles que descobriram todas as suas qualidades depois de ele já não estar cá para as ouvir.

Talvez por isso seja conveniente recordar o que aconteceu quando estava vivo.

Narana Coissoró dedicou décadas à vida pública portuguesa. Foi deputado, líder parlamentar do CDS durante 13 anos, vice-presidente da Assembleia da República e professor universitário. Atravessou os bons e os maus tempos do seu partido e nunca foi propriamente conhecido por dobrar a opinião ao sabor das conveniências.

Em 2012, já com 80 anos, veio publicamente dizer que os cortes então aplicados tinham reduzido os rendimentos das suas pensões de cerca de 7.000 euros para pouco mais de 3.000, além dos cortes nos subsídios de férias e de Natal. Acabou por colocar à venda a casa onde vivia no Monte Estoril. “A crise bateu-me à porta”, disse.

E deixou outra reflexão bem mais incómoda: tinha dedicado a vida à causa pública e não seguira certos “caminhos paralelos” que permitiram a outros sair da política com um confortável pé-de-meia.

Convém também dizer tudo: Narana recebia duas pensões e tinha requerido a subvenção vitalícia a que legalmente tinha direito. Não era um indigente e seria intelectualmente desonesto apresentá-lo dessa maneira.

Mas igualmente desonesto é apagar aquilo que aconteceu e aparecer agora a cobrir de elogios um homem que, quando ainda podia ouvi-los, se queixava de estar esquecido, de não pertencer a lóbis nem a “obediências secretas” e de já poucos quererem ouvir aquilo que tinha para dizer. E tinha, sempre teve tanto.

Portugal tem esta extraordinária capacidade: é frequentemente económico no reconhecimento dos vivos e pródigamente generoso na homenagem aos mortos.

Depois aparecem os discursos, os elogios, as fotografias, as condolências e a inevitável afirmação de que “Portugal perdeu uma grande figura”. E perdeu, sim.

Mas talvez fosse melhor aprendermos a reconhecer e a respeitar as grandes figuras enquanto estão vivas — mesmo, ou sobretudo, quando pensam politicamente de maneira diferente da nossa.

Porque a democracia também se mede pela capacidade de reconhecer dignidade, inteligência e carácter em quem está do outro lado. É isso que eu faço!!!

Narana Coissoró merece esse reconhecimento.

Que descanse em paz.




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