quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A ÉTICA, A RELIGIÃO E A POLÍTICA - As incompatibilidades “compatíveis” e o dessiso dos coreutas…

ÉTICA E RELIGIÃO...
A exigência moral não surge do facto de se, ser crente ou ateu, mas da condição humana, de querer ser pessoa humana, autêntica e cabal, plenamente realizada. A moral não contém dever, de se fazer um crente ou um ateu, desde que, tanto um como o outro sejam moralmente éticos. Deus criou o Homem por amor, segundo variados conceitos religiosos, mas sobretudo na perspectiva Cristã. Então Deus, só poderá querer a adequada e plena realização da pessoa humana, com o único e divino interesse pelo homem vivo, realizado e feliz.
A moral como ciência da ética, e a religião, serão pois distintas.
Muito embora a religião possa e deva, segundo os seus dogmas e propósitos, contribuir para a moral, o facto é que não poderemos consentir dizer que, onde não há religião e se ponha em causa a existência de Deus, tudo será permitido e imoral e assim sendo éticamente reprovável.
A religião e os religiosos sabem bem que, a sua prática, não se reduz à moral, embora fazendo parte dela, não é da mesma exclusivo nem temporal. As verdadeiras religiões, constituem, isso sim, o impulso para a realização ética e a prática da moral.
Sendo a moral e a sua prática, incondicionais, também somos normalmente confrontados com a religião e a finitude humana, mas terrena, consignada por Deus. A religião perdoa e Deus é geralmente o protagonista desse mesmo acto de perdoar, mas a moral ou a falta da prática dela mesma, é imperdoável aos olhos do Homem e da Civilização. O Homem como elemento historicamente fundamental do universo é o único responsável pela sua falta de ética. Como “Ser” central do conhecimento, não poderá prescindir dos seus deveres sociais, por ser ele próprio o “ser social e ético”. Mas a prática da religião, impõe aos seus praticantes semelhantes acções e atitudes morais, muito embora, como se disse anteriormente, não seja implícito – “ser moral e ético = ser religioso”.
A perspectiva cristã, adivinha e define o fim terreno do Homem, prolongando-lhe a existência eterna, no além espiritual.
Segundo o teólogo suíço Hans Kung, contemporâneo do Papa Bento XVI na Universidade alemã de Tubinga, onde ambos leccionaram Teologia, no seu “Projecto de Ética Mundial (Weltethos): Uma moral ecuménica em vista da sobrevivência humana”, define que “a religião é essencialmente resistência. A religião não serve somente para a opressão (como muitos apregoam), mas também para a libertação das pessoas e não somente de uma forma psico-terapêutica, mas também em dimensão político-social. Desde a América Latina, a religião lutou por uma sociedade humana, liberta da opressão. Ficou evidente tanto social quanto psicologicamente que a religião pode contribuir para promover a liberdade, a observação dos direitos humanos e o ressurgimento da democracia. A religião pode promover ética até há pouco não observada: a força revolucionária de uma ética da não violência.”
Kung, acredita no diálogo da fé cristã com as ciências naturais e a busca de uma ética mundial. Está convencido de que é possível construir-se esta ética a partir dos valores morais compartilhados pelas grandes religiões do mundo e aceites pela razão secular. 
Foi um crítico feroz de João Paulo II, considerando-o um papa de grandes dons e decisões erradas. A acção externa em favor dos direitos humanos, da paz no mundo e do entendimento entre as religiões contrastou com uma prática interna obstruindo reformas, negando o diálogo dentro da Igreja e impondo o domínio romano absoluto.
Mas as religiões não fazem, com frequência distinção entre o plano ético e o religioso. Os costumes dos povos, as regras e os princípios morais de cada grupo, são tão religiosos quanto as preces. Já em Moisés e nas suas “tábuas”, existiram os “mandamentos éticos” (exp. Não matarás!) ; e os “mandamentos religiosos” (exp. Não terás outros Deuses diante de Mim !).
Incluem-se nos cinco pilares dos muçulmanos (credo, oração, esmola, jejum e peregrinação a Meca) tanto orar a Deus como doar esmolas aos pobres. Não há aqui distinção entre a ética e a religião. A noção do ser humano como uma criação divina implica que ele é responsável perante Deus por tudo o que faz: ritual, moral, social e politicamente. Profetas e pregadores religiosos, muitas vezes, iniciaram debates sobre assuntos especificamente éticos. Em geral, os profetas do antigo Israel atacavam os ricos e poderosos que observavam fielmente os rituais, mas pisoteavam os pobres. O ponto de vista moral desses profetas tinha, porém, uma justificativa religiosa.
Nas sociedades onde coexistem várias religiões e vários pontos de vista éticos é mais difícil vincular a ética exclusivamente à religião. As sociedades precisam ter suas linhas mestras éticas, sendo que algumas delas são preservadas nas leis. Os romanos foram os primeiros a criar, de maneira sistemática, um esquema legal que pudesse ser usado por todos os povos, independentemente da religião. O Direito Romano tornou-se a base para todos os sistemas legais, subsequentes nos Estados seculares modernos. Em certos países muçulmanos há dois sistemas agindo em paralelo: um baseado no Corão, outro no Direito Romano. Hoje, muitos países aceitam a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pelas Nações Unidas como uma afirmação ética comum, seja qual for a religião ou a perspectiva geral do Estado.
A religião nunca é vinculada apenas ao intelecto. Ela envolve igualmente as emoções, que são tão essenciais na vida humana quanto o intelecto e a capacidade de pensar. A música, o canto e a dança apelam para as emoções. Na maioria das religiões, as pessoas extravasam, pela música instrumental e pelo canto, a tristeza ou a alegria; em algumas, também pela dança, que é um meio bastante antigo de expressão religiosa. Nos rituais cristãos, os hinos cantados em coro e a música de órgão (teclado) são parte integrante da experiência geral. Muitas igrejas e templos contêm, ainda, obras de arte - pinturas, esculturas e peças de altar que tocam a imaginação e as emoções.
A América Latina está marcada pelo surgimento, nas últimas décadas, de novos movimentos religiosos à margem das grandes religiões. São grupos que possuem, crenças peculiares e práticas religiosas próprias. Muitas vezes, seguem uma via espiritual em desconformidade com as instituições religiosas estabelecidas e as grandes tradições religiosas mundialmente reconhecidas. Muitos desses agrupamentos se distinguem por utilizarem técnicas de persuasão coercitiva e controle mental, para conseguir a total submissão dos indivíduos, numa actuação pouco ética e de moral duvidosa.
Porém, a consciência cristã, é assumida na fé, portanto, é também uma consciência religiosa. O povo sofrido é, ao mesmo tempo, um povo crente. Assim, a religião revela a existência de uma ética da alteridade, que por reconhecer o outro como igual, semelhante, julga injusto e contrário à vontade de Deus o mal que aniquila o homem. De facto, a religião – o Cristianismo de modo particular – preconiza uma ética alterativa não advinda de uma moral ôntica da consciência privada da totalidade fundada e firmada imoralmente, mas originária do respeito pelo outro, e fundada no amor e na justiça. 
Ainda segundo o Teólogo Hans Küng, vislumbra-se um futuro de responsabilidade. Essa responsabilidade obriga ao imperativo de aprender a pensar em inter-relações globais, especialmente com o meio ambiente, isto é, sobreviver como pessoas numa terra habitável. Então, o critério último da ética foi e continuará sendo hoje, mais que ontem, a pessoa humana. Ele pensa também, “numa ética mundial advinda de um concerto, entre as religiões que apontam Deus como valor máximo absoluto. Isso porque “as religiões exigem determinados padrões não negociáveis, propõem normas éticas fundamentais e máximas orientadoras que são fundamentadas a partir de um absoluto; as religiões conseguem transmitir uma dimensão mais profunda, um horizonte interpretativo mais abrangente face à dor, à injustiça, à culpa e à falta de sentido para viver. Também consegue transmitir um sentido último de vida ante a morte: o sentido de onde vem e para onde vai a existência humana; as religiões conseguem garantir os valores mais elevados, as normas mais incondicionais, as motivações mais profundas e os ideais mais sublimes; as religiões conseguem criar uma pátria de confiança, de fé, de certeza, de fortalecimento do “eu”, do abrigo e da esperança: uma comunidade e uma pátria espiritual; as religiões podem fundamentar protesto e resistência contra situações de injustiça e colocar-se a serviço de um projecto de transformação; as religiões podem oferecer motivações éticas extraídas de tradições e valores perenes; as religiões conseguem falar ao coração das pessoas individuais, interpelando-as a favor de causas justas, nobres, altruístas”.
“Quando a razão busca até ao fim, encontra na raiz dela o afecto que se expressa pelo amor e, acima dela, o espírito que se manifesta pela espiritualidade. E no termo final da busca, encontra o mistério. Mistério não é o limite da razão, mas o ilimitado da razão. Por isso, o mistério continua mistério em todo o conhecimento que se sente desafiado a conhecer sempre mais. A razão científica ratifica-nos esse percurso. Ela começou com a matéria, chegou aos átomos, desceu aos elementos sub-atômicos, à energia e aos campos energéticos, ao campo de Higgs, origem de todos os campos, ao big-bang, há 15 mil milhões de anos, para terminar no vácuo quântico, que é o estado de energia de fundo do universo, aquela fonte alimentadora de tudo o que existe, misteriosa e inominável, que o conhecido cosmólogo Brian Swimme identifica como “presença de Deus”.
Concretamente o mistério é o outro. Por mais que se queira conhecê-lo e enquadrá-lo, ele sempre se retrai para um mais além. Ele é mistério desafiador que nos obriga a sair de nós mesmos e a nos posicionar diante dele. Quando o outro irrompe à minha frente, nasce a ética, porque o outro me exige uma atitude prática, ou de acolhida, ou de indiferença ou de rechaço. O outro significa uma “pró-posta” que pede uma “res-posta” com responsabilidade O ethos que ama, funda um novo sentido de viver. Amar o outro é dar-lhe razão de existir. O existir é pura gratuidade, pois não há razão para existir. Amar o outro é querer que ele exista porque o amor faz o outro importante. “Amar uma pessoa é dizer-lhe: tu não morrerás jamais; tu deves existir, tu não podes morrer” (G. Marcel). Somente esse ethos que ama, está à altura dos desafios actuais porque inclui, todos. Faz dos distantes, próximos, e dos próximos, irmãos e irmãs. E por isso, tudo o que amamos, cuidamos, zelamos, defendemos e gostamos. Segundo e conforme o nosso entendimento e prática ética, religiosos ou ateus, mas sempre éticos como nós próprios.

António Ventura - U.L, 20 Out.2009
Notas e Bibliografia:
• Hans Küng (born March 19, 1928, in Sursee, Canton of Lucerne), is a Swiss Catholic priest, controversial theologian, and prolific author. Since 1995 he has been President of the Foundation for a Global Ethic (Stiftung Weltethos).
• Marcel, Gabriel (1987).Dramaturgo e filósofo francês. Aproximación al misterio del ser: Posición y aproximaciones concretas al misterio ontológico.
• Borges, Anselmo (2009) Diario de Noticias 16.10.09

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