terça-feira, 18 de agosto de 2026

Segurança Social: transparência, CGA e os 42 mil milhões do FEFSS — afinal, o que pretende o Governo?

O relatório independente sobre a sustentabilidade da Segurança Social, coordenado pelo economista Jorge Bravo, foi finalmente divulgado. Mas, em vez de esclarecer as dúvidas que há muito existem sobre o futuro da Segurança Social e do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), levanta novas interrogações.

E são interrogações que o Governo, e em particular a senhora Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, tem obrigação de esclarecer.

Não se trata de negar os problemas demográficos e financeiros que a Segurança Social enfrenta. Não se trata sequer de rejeitar a necessidade de reformar o sistema. Trata-se de exigir transparência, rigor e respeito pelos cidadãos que, durante décadas, contribuíram para este sistema.

Há uma questão de fundo que não pode ser escondida por discursos técnicos: o que pretende realmente o Governo fazer com o futuro da Segurança Social e com os cerca de 42 mil milhões de euros acumulados no FEFSS?

Um relatório que já estava na posse do Governo em julho.

Há um primeiro facto que merece esclarecimento. 

O Governo confirmou em julho que já tinha recebido o relatório final. Foi então referido que o documento estava sujeito a “acertos de edição”, tendo a sua divulgação pública ocorrido apenas posteriormente.

Ora, quando estamos perante um documento desta importância, que poderá influenciar decisões estruturais sobre as pensões de milhões de portugueses e sobre um património público de dezenas de milhares de milhões de euros, não basta dizer que houve “acertos de edição”.

Que alterações foram feitas entre a versão entregue à ministra e a versão agora divulgada?

Foram apenas alterações formais? Foram corrigidos erros? Foram acrescentados ou retirados dados? Foram alteradas conclusões ou recomendações?

O Governo deve publicar as versões e explicar claramente o que aconteceu.

A transparência não pode ser uma palavra utilizada apenas quando convém.

A CGA não é a Segurança Social

Outra questão que merece especial atenção é a inclusão da Caixa Geral de Aposentações (CGA) na análise global.

É perfeitamente legítimo estudar conjuntamente todas as responsabilidades públicas com pensões. Mas daí não resulta que a CGA e a Segurança Social sejam a mesma realidade financeira, contributiva ou institucional.

A CGA corresponde a um regime público próprio, ligado historicamente aos funcionários públicos, e possui responsabilidades que recaem em grande medida sobre o Estado e sobre o Orçamento do Estado.

A Segurança Social contributiva tem outra estrutura, outras fontes de financiamento e outra relação entre contribuições e prestações.

Por isso, é legítimo perguntar se a agregação dos dois sistemas, quando utilizada para construir uma determinada narrativa sobre a sustentabilidade, não acaba por obscurecer diferenças fundamentais.

Não basta apresentar um número global. É preciso explicar de onde vem esse número, que responsabilidades estão incluídas, quem suporta essas responsabilidades e que património existe para lhes fazer face.

O próprio coordenador do relatório reconheceu que uma leitura isolada da Segurança Social e da CGA pode produzir uma imagem enganadora.

Pois então que se faça uma análise completa e transparente, sem misturar realidades diferentes para produzir conclusões politicamente convenientes.

E chegamos ao FEFSS

Aqui está, talvez, a questão mais importante.

O FEFSS possui hoje um património próximo dos 42 mil milhões de euros.

Não estamos a falar de uma abstracção contabilística. Estamos a falar de património público, acumulado ao longo de décadas, destinado a funcionar como reserva para assegurar o pagamento futuro de pensões.

Esse dinheiro pertence, em última análise, aos contribuintes e beneficiários do sistema.

Por isso, qualquer alteração profunda à governação, à política de investimento, à utilização ou à finalidade desse Fundo exige a máxima transparência.

O relatório aponta para alterações na governação e na política do Fundo e chega a defender uma nova designação — “Fundo de Reserva dos Sistemas Públicos de Pensões”.

Tudo isto pode ser discutido.

Mas é precisamente por isso que temos de perguntar:

Quem vai controlar esses milhares de milhões de euros?

Quem vai decidir onde serão investidos?

Com que grau de risco?

Com que regras?

E para financiar exactamente que responsabilidades?

Não basta dizer que se pretende modernizar ou diversificar a gestão.

Quando se mexe num património desta dimensão, os portugueses têm direito a saber exactamente o que está em causa.

A palavra “privatização” não pode servir para esconder uma mudança de paradigma

É importante ser rigoroso.

O relatório hoje divulgado não diz simplesmente: “vamos privatizar a Segurança Social”.

Mas isso não significa que não devamos estar atentos à direcção das propostas.

Uma das matérias que o relatório coloca em cima da mesa é a criação de contas individuais de capitalização, com adesão automática e possibilidade de saída.

Isto é diferente de privatizar directamente a Segurança Social.

Mas também é legítimo perguntar se a introdução progressiva de mecanismos de capitalização individual poderá significar uma mudança de paradigma: uma parte crescente da proteção na velhice poderá deixar de depender exclusivamente do sistema público de repartição e passar a depender de mecanismos de capitalização individual.

É aqui que a discussão deve ser feita com seriedade.

Não é preciso afirmar que já existe uma decisão secreta de privatizar a Segurança Social para reconhecer que há uma mudança estrutural em discussão.

E é precisamente por isso que queremos respostas. Quatro perguntas muito simples ao Governo. Em vez de acusações sem provas, façamos perguntas concretas.

Primeira pergunta:
Por que razão se apresenta a CGA juntamente com a Segurança Social quando se pretende avaliar a sustentabilidade do sistema contributivo, sabendo que são regimes diferentes e que uma parte importante das responsabilidades da CGA recai sobre o Orçamento do Estado?

Segunda pergunta:
Que alterações concretas ao FEFSS estão previstas e quem passará a controlar os seus cerca de 42 mil milhões de euros?

Terceira pergunta:
Por que razão se introduzem contas individuais de capitalização, ainda que com possibilidade de saída, e que parte da proteção pública futura poderá passar para esses mecanismos individuais?

Quarta pergunta:
Por que razão um relatório que já estava entregue ao Governo em julho só foi divulgado posteriormente e que alterações foram feitas durante os chamados “acertos de edição”?

São perguntas simples.

Não são perguntas partidárias.

São perguntas que qualquer cidadão tem o direito de fazer quando estão em causa o seu dinheiro, as suas contribuições e a sua futura reforma.

O problema não é reformar. É reformar às escondidas.

Ninguém responsável pode negar que a evolução demográfica coloca desafios à Segurança Social.

A população envelhece. A relação entre activos e pensionistas altera-se. As despesas com pensões crescerão. E o sistema terá de ser adaptado.

Mas reconhecer esses problemas não significa aceitar qualquer solução.

Muito menos significa aceitar que se construa uma narrativa de “insustentabilidade” sem apresentar aos portugueses todas as contas: receitas, despesas, responsabilidades futuras, transferências do Estado, património do FEFSS e rendimentos desse património.

Se o FEFSS já acumulou cerca de 42 mil milhões de euros, também é legítimo perguntar como é que esse património entra nas contas da sustentabilidade futura.

O FEFSS não resolve, por si só, o problema demográfico. É uma reserva, não uma solução mágica.

Mas também não pode ser tratado como se não existisse.

E há aqui uma questão política que não pode ser evitada

Se a solução passa por reforçar a capitalização individual, temos de saber quem irá gerir essa capitalização, onde será investido o dinheiro, quem ficará com as comissões, que riscos serão suportados pelos cidadãos e que garantias existirão.

Porque uma coisa é o Estado assumir colectivamente o risco de um sistema público.

Outra coisa é transferir progressivamente esse risco para cada cidadão.

E uma coisa é reformar a Segurança Social para garantir a sua sustentabilidade.

Outra completamente diferente é aproveitar a existência de dificuldades reais para transferir progressivamente parcelas do sistema público para mecanismos de capitalização individual ou privados.

É essa fronteira que o Governo tem de explicar.

Não basta invocar a Europa

Também devemos ter cuidado com a tentação de apresentar estas mudanças como inevitáveis porque “a Europa recomenda”.

A União Europeia pode fazer recomendações, produzir estudos e defender determinados modelos de capitalização.

Mas as escolhas sobre o modelo de Segurança Social português são escolhas políticas.

E essas escolhas devem ser discutidas abertamente pelos portugueses.

Não podem ser apresentadas como uma inevitabilidade técnica.

Afinal, o que pretende o Governo?

É esta a pergunta que fica.

Não é preciso acusar ninguém de conspirar.

Não é preciso afirmar que existe uma decisão secreta já tomada.

É suficiente olhar para os factos e exigir explicações.

Temos um relatório que estava na posse do Governo desde julho.

Temos “acertos de edição” cuja extensão e conteúdo não foram devidamente esclarecidos.

Temos a inclusão da CGA numa análise global que precisa de ser explicada com muito rigor.

Temos um FEFSS com cerca de 42 mil milhões de euros.

Temos propostas para alterar a sua governação e política de investimento.

Temos a introdução de mecanismos de capitalização individual.

E temos um discurso crescente sobre a necessidade de reformar profundamente a Segurança Social.

Tudo isto pode ser legítimo.

Mas nada disto deve ser feito na obscuridade.

Não é preciso afirmar que já existe uma decisão de privatizar a Segurança Social para reconhecer que existe uma mudança de paradigma em discussão.

O que temos de exigir é transparência.

Uma coisa é reformar o sistema público e garantir a sua sustentabilidade; outra é introduzir progressivamente mecanismos de capitalização individual que possam transferir uma parte da proteção na velhice para soluções individuais ou profissionais. E outra ainda é alterar as regras de gestão de um Fundo público que já acumula cerca de 42 mil milhões de euros.

Antes de qualquer reforma, o Governo tem de explicar claramente o que pretende fazer com esse património, quem o vai gerir, como será investido e para que finalidade.

E também não aceito que se confundam realidades diferentes.

A CGA é um regime público de proteção social próprio, com responsabilidades que recaem em grande medida sobre o Estado. Pode e deve ser analisada quando se estudam as contas globais das pensões públicas, mas não pode ser usada de forma indiferenciada para construir a ideia de que o sistema contributivo da Segurança Social está falido.

Se queremos discutir sustentabilidade, discutamos todas as receitas, todas as despesas, o património do FEFSS e as responsabilidades futuras, com a mesma metodologia e total transparência.

Porque a Segurança Social não é propriedade de um Governo.

É um património colectivo dos portugueses.

E os portugueses têm o direito de saber o que estão a preparar para ela.



sexta-feira, 29 de maio de 2026

 

 


O GOLPE TECNOFORMA

(e a música a tocar)

O organismo antifraude europeu OLAF fez duas coisas essenciais no caso TECNOFORMA. Concluiu que houve uso indevido de fundos europeus.

Recomendou explicitamente a recuperação de verbas indevidamente utilizadas e, a UE não só investigou como pediu dinheiro de volta.

Cerca de 6,7 milhões de euros de fundos europeus deveriam ser devolvidos esses valores estavam ligados a programas como o Fundo Social Europeu, projectos de formação (ex: programa FORAL).

O OLAF não pode obrigar directamente à devolução.  Apenas emite  recomendações.  A decisão final cabe às autoridades nacionais, no caso (Portugal)

No caso TECNOFORMA a decisão de exigir devolução ficava nas mãos da autoridade de gestão portuguesa.

Mas o que aconteceu na práctica? O Ministério Público português arquivou o caso.

Alguns factos prescreveram (ou seja, já não podiam ser punidos). Não há evidência pública de que a devolução tenha sido efectivamente cobrada ou que tenha sido executada judicialmente

Em (2025–2026) não há notícias recentes de cobrança activa pela Comissão Europeia, processos de recuperação em curso ou acções do tipo “Bruxelas exige pagamento agora”. Ou seja, a recomendação existiu — mas não há sinais públicos de execução recente.

E portanto, haveremos de concluir que, Pedro Passos Coelho e o seu sócio Miguel Relvas se abarbataram com os euros e nada mais aconteceu.

Tenho dito!

(infos obt em IA)

sábado, 15 de novembro de 2025

 NÃO TE AMO. NUNCA TE AMEI.

Partiste, finalmente. Nem porta bateste — sinal raro de boa educação, mas também não vou dar-te demasiado crédito, que tu nunca soubeste entrar, quanto mais sair. O amor esperado de uma brisa romântica esvaiu-se e transformou-se. Vim à janela confirmar se era verdade. Era. O silêncio parecia quase envergonhado de aparecer assim tão de repente, depois de tantos dias a aturar-te. Esse tempo em que apenas reclamaste direitos.

Tu tens aquele talento único de transformar qualquer casa num cenário de desastre. Quem te vê ao longe pode até achar-te elegante, misteriosa, cheia de presença. Eu, que te conheço bem, sei que és presença a mais. Daquelas que entram a varrer, tomam conta do espaço e deixam tudo em modo “socorro”. E depois querem carinho. Francamente.

O pior é que tu não falas. Ruges. Gemes. Berravas pela noite dentro como quem exige atenção imediata. Eu, paciente como quase nunca sou, ainda te tentei decifrar. Há quem diga que o amor é um enigma. Se é, tu és um sudoku diabólico com trovoada incorporada. Nunca te percebi, mas percebi sempre que vinha asneira.

Tens um feitio que dispensa explicações: quando não estás a arrancar coisas, estás a empurrá-las. È assim a tua manifestação de amor. Irracional. Quando não estás a fazer drama, estás a preparar o próximo. Tens uma energia… como direi… indelicada. Um entusiasmo destrutivo. Uma paixão que se expressa mais com rajadas do que com gestos de ternura.

E não, não és instável — isso seria elogio. És insistente. Ficas dias a fio, agarrada a mim, a rondar cada minuto, como se achasses que o mundo girava exclusivamente em torno das tuas crises temperamentais. Há amantes ciumentas; tu és ciumenta e barulhenta. E explosiva. Literalmente.

Finalmente foste. E o ar, coitado, começou a recompor-se, como alguém que respirou fundo pela primeira vez em semanas. As árvores endireitam-se, os telhados ajustam-se, os vizinhos voltam a sair e a perceber que já nos separámos, pois deixaram de te ouvir esganiçada a reclamar outra vez.

Mas eu, que já te conheço de outros carnavais (e outros estragos), deixo aqui registado: não tenho saudades. Tenho memória — e isso chega. Não te amo. Nunca te amei.

Por isso, minha cara, despeço-me com a frieza que mereces, mas com a precisão que te define:

Por isso, antes que decidas regressar — como sempre regressas — deixo-te esta despedida formal, bem merecida, bem atrasada, e sem qualquer saudade misturada:

Adeus, Cláudia.

(depressão atmosférica com mania de grandeza)


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

 CAVACO SILVA: O PAÍS DO ALCATRÃO E DA ILUSÃO

( respondendo à declaração do candidato Marques Mendes de hoje - "Pode-se gostar ou não mas Cavaco Silva foi o melhor Primeiro Ministro de Portugal" ) 

Chamaram-lhe o homem da modernização. O economista que pôs o país “a crescer”, que nos fez entrar na Europa, que trocou os caminhos de terra batida por autoestradas reluzentes. Foi o tempo das inaugurações, dos fundos comunitários, da “Europa connosco”.
Mas, no fim de contas, o que é que realmente modernizámos?
O chão, talvez. O resto ficou a meio caminho entre o desmantelado e o esquecido.
Nos anos de Cavaco Silva, Portugal recebeu milhares de milhões de euros da CEE — fundos estruturais que, usados com visão, poderiam ter consolidado a agricultura, a indústria, a pesca, a investigação e a cultura. Em vez disso, pagou-se para parar de produzir. Pagou-se para arrancar vinhas, abater barcos, encerrar fábricas, deixar terras ao abandono. Tudo com selo europeu e aplauso interno. 

As políticas agrícolas da época levaram à perda de mais de 500 mil hectares de área cultivada em poucos anos.
A frota pesqueira foi reduzida para cumprir as quotas comunitárias — centenas de embarcações abatidas em troca de compensações.
A indústria, sem proteção nem estratégia, definhou perante a concorrência externa, e o país passou a importar o que antes produzia.
Chamaram-lhe “reestruturação produtiva”. Mas a verdade é que se tratou de um desmantelamento económico mascarado de modernidade. 
O país ficou dependente de fundos e de importações, habituado à ideia de que o dinheiro vem de fora e que basta aplicá-lo em alcatrão para parecer progresso. E enquanto se asfaltavam estradas e rotundas, as fundações do país iam sendo corroídas. Criou-se a ilusão de riqueza, de estabilidade, de “país europeu”, mas o que realmente se construiu foi um modelo económico de fachada — forte nas obras, fraco na substância. A cultura foi vítima colateral. Num tempo em que tudo era avaliado em números e crescimento, a inteligência crítica passou a ser um estorvo. Não havia espaço para pensamento, apenas para “obra feita”.

O país ficou mais bonito nas fotografias, mas mais pobre na alma.

Trinta anos depois, o saldo é claro: as estradas resistem, mas o país produtivo desapareceu. E das estradas restam os pórticos e as barreiras de portagens para se continuar a pagar o que foi feito com os fundos recebidos.
Portugal tornou-se um país de serviços e dependências, sempre à espera da próxima tranche europeia, sempre a justificar o presente com o passado.
A modernização de Cavaco Silva foi, no fundo, um pacto com a ilusão: trocámos a autonomia económica por uma sensação de conforto momentâneo.

Sim, modernizámos o país. Mas à custa da sua espinha dorsal.
Erguemos viadutos sobre ruínas.
E hoje, quando olhamos à volta, percebemos que a herança do “cavaquismo” é esta: um país com muito alcatrão, mas pouca soberania; muito progresso, mas pouca independência; muita Europa, mas pouco Portugal.
Desses malfadados tempos não podemos varrer para debaixo do tapete, os grandes procesos de corrupção e as fraudes bancárias, de que se destaca o BPN, dos amigos de Cavaco, com milhares de milhões de desgaste do erário público.
Cavaco foi um desastre nacional. 
Como foi possível?

António Ventura - Ilha das Cagarras - Selvagens  - 31-10-2025

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

 

SE ALGUÉM AINDA ACREDITAVA NA JUSTIÇA CEGA, HOJE TEVE UMA SURPRESA AMARGA: A JUSTIÇA OLHOU-SE AO ESPELHO — E NÃO GOSTOU DO QUE VIU

Hoje, ao fim de sete ou oito anos, começou o julgamento de três juízes desembargadores acusados de corrupção. Três. Logo eles, que deviam ser o último reduto da decência num país onde a palavra “corrupção” já perdeu o peso das sílabas. É uma foto cruel: os guardiões da lei, agora sentados do lado errado da barra. E lá estão — compostos, engravatados, com a serenidade de quem sabe que a justiça, cá, costuma ser branda com os seus.


Mas o dia não se ficou por aí. Cem inspetores da PJ espalham-se pelo país, especialmente em Oeiras e Lisboa — buscas no Novo Banco, na KPMG, em escritórios de advogados e em residências de gente “respeitável”. O motivo? Entre outros, muitos outros que ainda desconhecemos, a venda da Herdade da Ferraria, no Meco, à mulher de um administrador do banco. Uma pechincha de 1,1 milhões por uma propriedade que vale dez vezes mais. É o tipo de negócio que só acontece em Portugal: propriedade de luxo ao preço de batatas, desde que o comprador tenha o cartão certo e o número de telefone certo.

E, como se o universo tivesse um estranho sentido de humor, no mesmo dia o Ministro das Finanças assinou a venda da participação do Estado no Novo Banco a um grupo francês. Vinte e cinco por cento daquilo que nós pagámos — e que nos custou no total mais de oito mil milhões, devido à resolução do BES liderada pelo eminente Governador do BP Carlos Costa — entregues de bandeja. O Estado — ou seja, nós — perde mais de seis mil milhões e agora recebe, imagine-se, 1,6 milhões. Nem dá para cobrir o custo dos comunicados de imprensa. E o pouco que entra nem sequer fica nos cofres públicos, indo em parte significativa para o Fundo de Resolução. Só uns 700 ou 800 mil vão para o Orçamento do Estado. Traduzindo: devolvem-nos as migalhas e ainda nos agradecem por termos pago o banquete.

Há quem chame a isto economia de mercado. Eu chamo-lhe esbulho legalizado. Uma coreografia antiga entre políticos, banqueiros e auditores — todos dançando ao som do mesmo fado desafinado. E nós, os contribuintes, aplaudimos por hábito, cansados demais para vaiar.

Trinta anos disto, ou mais. Centenas de milhões desaparecidos entre offshores, sociedades veículo, escritórios de advogados que escrevem as leis que depois os seus clientes usam para as contornar. E agora, juízes. Os mesmos que deviam dizer “basta”. É o país ao espelho — e o reflexo devolve-nos uma imagem difícil de encarar.

Uma justiça célere que deixa prescrever crimes, que não age e tem de soltar presos preventivos, que deixa outros fugir das cadeias, mas condena a velhinha que recebe uma mísera pensão, que nem lhe chega ao dia 15, por furtar um chocolate ou uma embalagem de iogurtes baratos no supermercado do grupo com sede na Holanda.

E assim continuamos: aplaudindo a coreografia, pagando o banquete, e esperando que algum dia o país aprenda os passos desta dança macabra. Hoje, a justiça olhou-se ao espelho. A grande questão é se o país também terá coragem de encarar o reflexo.

António Ventura / Musgueira — Lisboa, 29 Out 25

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

 

AS MAMAS, O LEITE E A MAMAGEM

Crónica de um país ao sol (e à sombra da estupidez)

Acordei cansado. Não daquele cansaço bom, de quem trabalhou, mas do cansaço de viver num país onde a ignorância tem likes, as mães que amamentam são tratadas como criminosas de produtividade, e a “época dos fogos” parece mais importante que o combate aos incêndios. Aquele cansaço de quem trabalhou arduamente, mas o repouso desconfiado do guerreiro que sabe que o dia lá fora é, provavelmente, mais perigoso que a própria guerra. Fiquei uns minutos na horizontal, a folhear — no ecrã, claro — as novas e as velhas notas de uns quantos onlookers e frequent social media  publishers.

 


Nada de especial: umas ofensas involuntárias, uns sorrisos solitários (sim, rio-me sozinho, como um tolo), muita ingenuidade e, sobretudo, a já habitual falta de conhecimento histórico e político. É fascinante ver como, neste pequeno planeta em que vivemos, há quem escreva com a confiança de um sábio… mas com a ignorância de um nabo.

A incultura política é o novo desporto nacional. A falta de nexo, a credulidade infantil — “naif”, como se gosta de dizer —, as opiniões disparadas como se fossem tiros certeiros… e que afinal só acertam no pé. Não se pode querer um país de cidadãos com refinada literacia financeira, capazes de entender os sonhos febris da senhora Lagarde ou os arremessos noctívagos de um Trump narcísico que parece nunca dormir.

Como diz a psicóloga Filipa Mendia, na “Tríade da Psicopatologia” mora o narcisismo (falta de empatia, orgulho e egoísmo), o maquiavelismo e a psicopatia. Um condomínio completo, hoje habitado por boa parte dos que julgam governar-nos — mas que, na prática, nos destroem… e talvez nos levem à aniquilação global.

A manhã até começou com sol — prenúncio de esperança, pensei eu. Ingénuo. Bastaram uns minutos de televisão e rádio para perceber que o dia ia ser ruim. Lá estavam eles, os profissionais da trapalhada, a falar de “governar” sem a menor ideia do que é servir o País e os que ainda por cá resistem.

E eis que surge o escândalo do dia: as “mamas e mamagens” ilegítimas. Não, não se trata de amamentação clandestina, mas de mães que, vejam só a ousadia, tiram duas ou três horas do trabalho para alimentar e acompanhar os filhos. Um abuso intolerável! Coitadas das empresas, obrigadas a pagar salários altíssimos, enquanto estas mães descaradas se atrevem a criar uma infância minimamente saudável. Felizmente, a senhora ministra do Trabalho, atenta como um cão de guarda, descobriu a artimanha. Não disse quantos casos havia — certamente mais de três — mas ficou clara a mensagem: a maternidade é uma ameaça à produtividade.

Entretanto, o país arde. Norte, centro… nada de novo. Há anos que alguém escreveu que se devia ter criado oficialmente a “época dos fogos”, como temos a dos "Festivais", das "Vindimas de Palmela", dos "Festivais de Caneças", "Albergaria dos Doze", "Freixo de Espada à Cinta", do "Nos" e da "Cerveja Sagres" (o Meo do Sudoeste faliu, coitado do tão abençoado genro do Cavaco) ou do "melão de Almeirim". Agora até se ouve que vão gastar 17 milhões para adaptar uns C-130 velhos para combate a incêndios. Uma genial ideia do não menos genial, o nosso senhor castrense Ministro Melo. Um crime: assim arriscam-se a estragar a nossa nova tradição sazonal.

E as guerras? Ah, isso fica para outro dia. Ainda não decidi se chamo nomes ou se mando simplesmente alguns foder-se.

O sol já vai alto. Por aqui me fico, aguardando que, ainda hoje, em alguma rede social, alguém me acuse de “putinista”, “comunista” ou “ignorante”. Aguento tudo. Talvez até intente um processo contra algum pavão político pela merda que faz em meu prejuízo e do país.

Enquanto o país arde, os pavões da política discutem mamas, mamagens e outros disparates, convencidos de que governar é servir-se. Talvez um dia eu decida processá-los. Ou talvez emigre e vá pastar caracóis para uma agricultura mais desenvolvida — pelo menos lá não me chamam “putinista” ao pequeno-almoço.

Ir pastar caracóis para uma agricultura mais desenvolvida. Quem sabe, até com wi-fi.


AV / Quartel em Venda da Porca (Estremoz) 08-08-2025


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

 

ESTA LISBOA QUE EU AMAVA

Lisboa: uma cidade perdida no desgoverno e no caos

Ontem percorri os bairros mais emblemáticos de Lisboa — Chiado, Camões, Trindade, Rossio e a histórica Baixa Pombalina — acompanhado por amigos que, tal como eu, ficaram profundamente consternados com o cenário que hoje se apresenta. A cidade que outrora encantava pelo seu charme, cultura e beleza está irreconhecível. O que encontramos é uma Lisboa tomada pelo abandono, pela gentrificação selvagem e pela desordem urbana.

A higiene urbana é praticamente inexistente. O lixo acumula-se em ruas e passeios esburacados, criando uma sensação de miséria e desleixo que desrespeita a memória e a dignidade desta cidade milenar. Onde antes florescia uma população residente vibrante, hoje sobram turistas e nómadas digitais que já pensam em abandonar o que outrora foi um refúgio aprazível. A população local, que dava vida às ruas e tradição aos bairros, foi escorraçada pelo aumento brutal do custo de vida e pela proliferação desenfreada de unidades de alojamento local, muitas delas à margem da legalidade, sem controlo ou fiscalização.

Lisboa transformou-se num parque temático selvagem, onde o turismo de massas, longe de ser um benefício, tornou-se um veneno que corrói a identidade da cidade. Comentários em órgãos de comunicação estrangeiros referem a crescente insegurança, a falta de habitação acessível e um sentimento de exaustão que pode levar à desertificação dos seus novos e antigos habitantes.

No centro deste desastre está um autarca cuja governação se resume a populismo barato e autopromoção. Carlos Moedas, saído das fileiras da Goldman Sachs e com um percurso europeu pouco claro, revela-se um político vazio, mais preocupado em discursar para as câmaras de televisão do que em governar com responsabilidade e visão. A sua recente alegação de ser “especialista em habitação urbana” a convite da União Europeia é uma farsa que ilustra bem o seu perfil: uma autêntica autoindulgência sem sustentação.

A verdade é que Lisboa está hoje entregue a um desgoverno que não respeita a sua história, nem a sua população. Uma cidade sem rumo, afundando-se na sujeira, na desorganização social e na perda de alma. Lisboa está transformada num circo onde os verdadeiros protagonistas — os lisboetas — foram postos à margem. O turismo desenfreado e a falta de políticas urbanas coerentes conduziram-nos a este cenário de degradação.

É urgente denunciar e combater esta canalha que, sob a capa de grandes decisões políticas, está a hipotecar o futuro de Lisboa. O desleixo é gritante e o sentimento de tristeza e impotência é geral. A capital portuguesa merece muito mais do que um gestor de vídeo e palavras ocas. Merece um projeto sério, respeitador da sua identidade e da sua gente. Até lá, Lisboa continuará a afundar-se num mar de lixo, incertezas e abandono.

Pobre Lisboa, que tem tudo para brilhar, mas que hoje é refém de quem a desgoverna.


AV/ 06-08-2025 Rua Poço dos Negros - Lisboa

Segurança Social: transparência, CGA e os 42 mil milhões do FEFSS — afinal, o que pretende o Governo?

O relatório independente sobre a sustentabilidade da Segurança Social, coordenado pelo economista Jorge Bravo, foi finalmente divulgado. Mas...