LUSITANA DESVENTURA
sábado, 29 de agosto de 2026
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Segurança Social: transparência, CGA e os 42 mil milhões do FEFSS — afinal, o que pretende o Governo?
O relatório independente sobre a sustentabilidade da Segurança Social, coordenado pelo economista Jorge Bravo, foi finalmente divulgado. Mas, em vez de esclarecer as dúvidas que há muito existem sobre o futuro da Segurança Social e do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), levanta novas interrogações.
E são interrogações que o Governo, e em particular a senhora
Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, tem obrigação de
esclarecer.
Não se trata de negar os problemas demográficos e financeiros
que a Segurança Social enfrenta. Não se trata sequer de rejeitar a necessidade
de reformar o sistema. Trata-se de exigir transparência, rigor e respeito pelos
cidadãos que, durante décadas, contribuíram para este sistema.
Há uma questão de fundo que não pode ser escondida por
discursos técnicos: o que pretende realmente o Governo fazer com o futuro da
Segurança Social e com os cerca de 42 mil milhões de euros acumulados no FEFSS?
Um relatório que já estava na posse do Governo em julho.
Há um primeiro facto que merece esclarecimento.
O Governo confirmou em julho que já tinha recebido o
relatório final. Foi então referido que o documento estava sujeito a “acertos
de edição”, tendo a sua divulgação pública ocorrido apenas posteriormente.
Ora, quando estamos perante um documento desta importância,
que poderá influenciar decisões estruturais sobre as pensões de milhões de
portugueses e sobre um património público de dezenas de milhares de milhões de
euros, não basta dizer que houve “acertos de edição”.
Que alterações foram feitas entre a versão entregue à
ministra e a versão agora divulgada?
Foram apenas alterações formais? Foram corrigidos erros?
Foram acrescentados ou retirados dados? Foram alteradas conclusões ou
recomendações?
O Governo deve publicar as versões e explicar claramente o
que aconteceu.
A transparência não pode ser uma palavra utilizada apenas
quando convém.
A CGA não é a Segurança Social
Outra questão que merece especial atenção é a inclusão da
Caixa Geral de Aposentações (CGA) na análise global.
É perfeitamente legítimo estudar conjuntamente todas as
responsabilidades públicas com pensões. Mas daí não resulta que a CGA e a
Segurança Social sejam a mesma realidade financeira, contributiva ou
institucional.
A CGA corresponde a um regime público próprio, ligado
historicamente aos funcionários públicos, e possui responsabilidades que recaem
em grande medida sobre o Estado e sobre o Orçamento do Estado.
A Segurança Social contributiva tem outra estrutura, outras
fontes de financiamento e outra relação entre contribuições e prestações.
Por isso, é legítimo perguntar se a agregação dos dois
sistemas, quando utilizada para construir uma determinada narrativa sobre a
sustentabilidade, não acaba por obscurecer diferenças fundamentais.
Não basta apresentar um número global. É preciso explicar de
onde vem esse número, que responsabilidades estão incluídas, quem suporta essas
responsabilidades e que património existe para lhes fazer face.
O próprio coordenador do relatório reconheceu que uma leitura
isolada da Segurança Social e da CGA pode produzir uma imagem enganadora.
Pois então que se faça uma análise completa e transparente,
sem misturar realidades diferentes para produzir conclusões politicamente
convenientes.
E chegamos ao FEFSS
Aqui está, talvez, a questão mais importante.
O FEFSS possui hoje um património próximo dos 42 mil
milhões de euros.
Não estamos a falar de uma abstracção contabilística. Estamos
a falar de património público, acumulado ao longo de décadas, destinado a
funcionar como reserva para assegurar o pagamento futuro de pensões.
Esse dinheiro pertence, em última análise, aos contribuintes
e beneficiários do sistema.
Por isso, qualquer alteração profunda à governação, à
política de investimento, à utilização ou à finalidade desse Fundo exige a
máxima transparência.
O relatório aponta para alterações na governação e na
política do Fundo e chega a defender uma nova designação — “Fundo de Reserva
dos Sistemas Públicos de Pensões”.
Tudo isto pode ser discutido.
Mas é precisamente por isso que temos de perguntar:
Quem vai controlar esses milhares de milhões de euros?
Quem vai decidir onde serão investidos?
Com que grau de risco?
Com que regras?
E para financiar exactamente que responsabilidades?
Não basta dizer que se pretende modernizar ou diversificar a
gestão.
Quando se mexe num património desta dimensão, os portugueses
têm direito a saber exactamente o que está em causa.
A palavra “privatização” não pode servir para esconder uma
mudança de paradigma
É importante ser rigoroso.
O relatório hoje divulgado não diz simplesmente: “vamos
privatizar a Segurança Social”.
Mas isso não significa que não devamos estar atentos à
direcção das propostas.
Uma das matérias que o relatório coloca em cima da mesa é a
criação de contas individuais de capitalização, com adesão automática e
possibilidade de saída.
Isto é diferente de privatizar directamente a Segurança
Social.
Mas também é legítimo perguntar se a introdução progressiva
de mecanismos de capitalização individual poderá significar uma mudança de
paradigma: uma parte crescente da proteção na velhice poderá deixar de depender
exclusivamente do sistema público de repartição e passar a depender de
mecanismos de capitalização individual.
É aqui que a discussão deve ser feita com seriedade.
Não é preciso afirmar que já existe uma decisão secreta de
privatizar a Segurança Social para reconhecer que há uma mudança estrutural
em discussão.
E é precisamente por isso que queremos respostas. Quatro perguntas muito simples ao Governo. Em vez de acusações sem provas, façamos perguntas concretas.
Primeira pergunta:
Por que razão se apresenta a CGA juntamente com a Segurança Social quando se
pretende avaliar a sustentabilidade do sistema contributivo, sabendo que são
regimes diferentes e que uma parte importante das responsabilidades da CGA
recai sobre o Orçamento do Estado?
Segunda pergunta:
Que alterações concretas ao FEFSS estão previstas e quem passará a controlar
os seus cerca de 42 mil milhões de euros?
Terceira pergunta:
Por que razão se introduzem contas individuais de capitalização, ainda que
com possibilidade de saída, e que parte da proteção pública futura poderá
passar para esses mecanismos individuais?
Quarta pergunta:
Por que razão um relatório que já estava entregue ao Governo em julho só foi
divulgado posteriormente e que alterações foram feitas durante os chamados
“acertos de edição”?
São perguntas simples.
Não são perguntas partidárias.
São perguntas que qualquer cidadão tem o direito de fazer
quando estão em causa o seu dinheiro, as suas contribuições e a sua futura
reforma.
O problema não é reformar. É reformar às escondidas.
Ninguém responsável pode negar que a evolução demográfica
coloca desafios à Segurança Social.
A população envelhece. A relação entre activos e pensionistas
altera-se. As despesas com pensões crescerão. E o sistema terá de ser adaptado.
Mas reconhecer esses problemas não significa aceitar qualquer
solução.
Muito menos significa aceitar que se construa uma narrativa
de “insustentabilidade” sem apresentar aos portugueses todas as contas:
receitas, despesas, responsabilidades futuras, transferências do Estado,
património do FEFSS e rendimentos desse património.
Se o FEFSS já acumulou cerca de 42 mil milhões de euros,
também é legítimo perguntar como é que esse património entra nas contas da
sustentabilidade futura.
O FEFSS não resolve, por si só, o problema demográfico. É uma
reserva, não uma solução mágica.
Mas também não pode ser tratado como se não existisse.
E há aqui uma questão política que não pode ser evitada
Se a solução passa por reforçar a capitalização individual,
temos de saber quem irá gerir essa capitalização, onde será investido o
dinheiro, quem ficará com as comissões, que riscos serão suportados pelos
cidadãos e que garantias existirão.
Porque uma coisa é o Estado assumir colectivamente o risco de
um sistema público.
Outra coisa é transferir progressivamente esse risco para
cada cidadão.
E uma coisa é reformar a Segurança Social para garantir a sua
sustentabilidade.
Outra completamente diferente é aproveitar a existência de
dificuldades reais para transferir progressivamente parcelas do sistema público
para mecanismos de capitalização individual ou privados.
É essa fronteira que o Governo tem de explicar.
Não basta invocar a Europa
Também devemos ter cuidado com a tentação de apresentar estas
mudanças como inevitáveis porque “a Europa recomenda”.
A União Europeia pode fazer recomendações, produzir estudos e
defender determinados modelos de capitalização.
Mas as escolhas sobre o modelo de Segurança Social português
são escolhas políticas.
E essas escolhas devem ser discutidas abertamente pelos
portugueses.
Não podem ser apresentadas como uma inevitabilidade técnica.
Afinal, o que pretende o Governo?
É esta a pergunta que fica.
Não é preciso acusar ninguém de conspirar.
Não é preciso afirmar que existe uma decisão secreta já
tomada.
É suficiente olhar para os factos e exigir explicações.
Temos um relatório que estava na posse do Governo desde
julho.
Temos “acertos de edição” cuja extensão e conteúdo não foram
devidamente esclarecidos.
Temos a inclusão da CGA numa análise global que precisa de
ser explicada com muito rigor.
Temos um FEFSS com cerca de 42 mil milhões de euros.
Temos propostas para alterar a sua governação e política de
investimento.
Temos a introdução de mecanismos de capitalização individual.
E temos um discurso crescente sobre a necessidade de reformar
profundamente a Segurança Social.
Tudo isto pode ser legítimo.
Mas nada disto deve ser feito na obscuridade.
Não é preciso afirmar que já existe uma decisão de privatizar
a Segurança Social para reconhecer que existe uma mudança de paradigma em
discussão.
O que temos de exigir é transparência.
Uma coisa é reformar o sistema público e garantir a sua
sustentabilidade; outra é introduzir progressivamente mecanismos de
capitalização individual que possam transferir uma parte da proteção na velhice
para soluções individuais ou profissionais. E outra ainda é alterar as regras
de gestão de um Fundo público que já acumula cerca de 42 mil milhões de euros.
Antes de qualquer reforma, o Governo tem de explicar
claramente o que pretende fazer com esse património, quem o vai gerir, como
será investido e para que finalidade.
E também não aceito que se confundam realidades diferentes.
A CGA é um regime público de proteção social próprio, com
responsabilidades que recaem em grande medida sobre o Estado. Pode e deve ser
analisada quando se estudam as contas globais das pensões públicas, mas não
pode ser usada de forma indiferenciada para construir a ideia de que o sistema
contributivo da Segurança Social está falido.
Se queremos discutir sustentabilidade, discutamos todas as
receitas, todas as despesas, o património do FEFSS e as responsabilidades
futuras, com a mesma metodologia e total transparência.
Porque a Segurança Social não é propriedade de um Governo.
É um património colectivo dos portugueses.
E os portugueses têm o direito de saber o que estão a
preparar para ela.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O GOLPE TECNOFORMA
(e a música a tocar)
O
organismo antifraude europeu OLAF fez duas coisas essenciais no caso TECNOFORMA.
Concluiu que houve uso indevido de fundos europeus.
Recomendou
explicitamente a recuperação de verbas indevidamente utilizadas e, a UE não só
investigou como pediu dinheiro de volta.
Cerca
de 6,7 milhões de euros de fundos europeus deveriam ser devolvidos esses
valores estavam ligados a programas como o Fundo Social Europeu, projectos de
formação (ex: programa FORAL).
O
OLAF não pode obrigar directamente à devolução.
Apenas emite recomendações. A decisão final cabe às autoridades
nacionais, no caso (Portugal)
No
caso TECNOFORMA a decisão de exigir devolução ficava nas mãos da
autoridade de gestão portuguesa.
Mas
o que aconteceu na práctica? O Ministério Público português arquivou o caso.
Alguns
factos prescreveram (ou seja, já não podiam ser punidos). Não há evidência
pública de que a devolução tenha sido efectivamente cobrada ou que tenha sido
executada judicialmente
Em
(2025–2026) não há notícias recentes de cobrança activa pela Comissão Europeia,
processos de recuperação em curso ou acções do tipo “Bruxelas exige pagamento
agora”. Ou seja, a recomendação existiu — mas não há sinais públicos de
execução recente.
E
portanto, haveremos de concluir que, Pedro Passos Coelho e o seu sócio Miguel
Relvas se abarbataram com os euros e nada mais aconteceu.
Tenho
dito!
(infos
obt em IA)
sábado, 15 de novembro de 2025
NÃO TE AMO. NUNCA TE AMEI.
Partiste,
finalmente. Nem porta bateste — sinal raro de boa educação, mas também não vou
dar-te demasiado crédito, que tu nunca soubeste entrar, quanto mais sair. O
amor esperado de uma brisa romântica esvaiu-se e transformou-se. Vim à janela
confirmar se era verdade. Era. O silêncio parecia quase envergonhado de
aparecer assim tão de repente, depois de tantos dias a aturar-te. Esse tempo em
que apenas reclamaste direitos.
Tu tens aquele
talento único de transformar qualquer casa num cenário de desastre. Quem te vê
ao longe pode até achar-te elegante, misteriosa, cheia de presença. Eu, que te
conheço bem, sei que és presença a mais. Daquelas que entram a varrer, tomam
conta do espaço e deixam tudo em modo “socorro”. E depois querem carinho.
Francamente.
O pior é que tu
não falas. Ruges. Gemes. Berravas pela noite dentro como quem exige atenção
imediata. Eu, paciente como quase nunca sou, ainda te tentei decifrar. Há quem
diga que o amor é um enigma. Se é, tu és um sudoku diabólico com trovoada
incorporada. Nunca te percebi, mas percebi sempre que vinha asneira.
Tens um feitio
que dispensa explicações: quando não estás a arrancar coisas, estás a
empurrá-las. È assim a tua manifestação de amor. Irracional. Quando não estás a
fazer drama, estás a preparar o próximo. Tens uma energia… como direi…
indelicada. Um entusiasmo destrutivo. Uma paixão que se expressa mais com
rajadas do que com gestos de ternura.
E não, não és
instável — isso seria elogio. És insistente. Ficas dias a fio, agarrada a mim,
a rondar cada minuto, como se achasses que o mundo girava exclusivamente em
torno das tuas crises temperamentais. Há amantes ciumentas; tu és ciumenta e
barulhenta. E explosiva. Literalmente.
Finalmente
foste. E o ar, coitado, começou a recompor-se, como alguém que respirou fundo
pela primeira vez em semanas. As árvores endireitam-se, os telhados ajustam-se,
os vizinhos voltam a sair e a perceber que já nos separámos, pois deixaram de
te ouvir esganiçada a reclamar outra vez.
Mas eu, que já
te conheço de outros carnavais (e outros estragos), deixo aqui registado: não
tenho saudades. Tenho memória — e isso chega. Não te amo. Nunca te amei.
Por isso, minha
cara, despeço-me com a frieza que mereces, mas com a precisão que te define:
Por isso, antes
que decidas regressar — como sempre regressas — deixo-te esta despedida formal,
bem merecida, bem atrasada, e sem qualquer saudade misturada:
Adeus, Cláudia.
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
CAVACO SILVA: O PAÍS DO ALCATRÃO E DA ILUSÃO
( respondendo à declaração do candidato Marques Mendes de hoje - "Pode-se gostar ou não mas Cavaco Silva foi o melhor Primeiro Ministro de Portugal" )
As políticas
agrícolas da época levaram à perda de mais de 500 mil hectares de área
cultivada em poucos anos.
A frota pesqueira foi reduzida para cumprir as quotas comunitárias — centenas
de embarcações abatidas em troca de compensações.
A indústria, sem proteção nem estratégia, definhou perante a concorrência
externa, e o país passou a importar o que antes produzia.
Chamaram-lhe “reestruturação produtiva”. Mas a verdade é que se tratou de um
desmantelamento económico mascarado de modernidade. O país ficou
dependente de fundos e de importações, habituado à ideia de que o dinheiro vem
de fora e que basta aplicá-lo em alcatrão para parecer progresso. E enquanto se asfaltavam estradas e rotundas, as fundações do país iam sendo
corroídas. Criou-se a ilusão de riqueza, de estabilidade, de “país europeu”, mas o que
realmente se construiu foi um modelo económico de fachada — forte nas obras,
fraco na substância. A cultura foi
vítima colateral. Num tempo em que tudo era avaliado em números e crescimento, a
inteligência crítica passou a ser um estorvo. Não havia espaço para pensamento, apenas para “obra feita”.
O país ficou mais bonito nas fotografias, mas mais pobre na alma.
Trinta anos
depois, o saldo é claro: as estradas resistem, mas o país produtivo
desapareceu. E das estradas restam os pórticos e as barreiras de portagens para se continuar a pagar o que foi feito com os fundos recebidos.
Portugal tornou-se um país de serviços e dependências, sempre à espera da
próxima tranche europeia, sempre a justificar o presente com o passado.
A modernização de Cavaco Silva foi, no fundo, um pacto com a ilusão:
trocámos a autonomia económica por uma sensação de conforto momentâneo.
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
SE
ALGUÉM AINDA ACREDITAVA NA JUSTIÇA CEGA, HOJE TEVE UMA SURPRESA AMARGA: A
JUSTIÇA OLHOU-SE AO ESPELHO — E NÃO GOSTOU DO QUE VIU
Hoje, ao fim de sete ou oito
anos, começou o julgamento de três juízes desembargadores acusados de
corrupção. Três. Logo eles, que deviam ser o último reduto da decência num país
onde a palavra “corrupção” já perdeu o peso das sílabas. É uma foto cruel: os
guardiões da lei, agora sentados do lado errado da barra. E lá estão —
compostos, engravatados, com a serenidade de quem sabe que a justiça, cá,
costuma ser branda com os seus.
Mas o dia não se ficou por aí. Cem inspetores da PJ espalham-se pelo país, especialmente em Oeiras e Lisboa — buscas no Novo Banco, na KPMG, em escritórios de advogados e em residências de gente “respeitável”. O motivo? Entre outros, muitos outros que ainda desconhecemos, a venda da Herdade da Ferraria, no Meco, à mulher de um administrador do banco. Uma pechincha de 1,1 milhões por uma propriedade que vale dez vezes mais. É o tipo de negócio que só acontece em Portugal: propriedade de luxo ao preço de batatas, desde que o comprador tenha o cartão certo e o número de telefone certo.
E, como se o universo tivesse
um estranho sentido de humor, no mesmo dia o Ministro das Finanças assinou a
venda da participação do Estado no Novo Banco a um grupo francês. Vinte e cinco
por cento daquilo que nós pagámos — e que nos custou no total mais de oito mil
milhões, devido à resolução do BES liderada pelo eminente Governador do BP
Carlos Costa — entregues de bandeja. O Estado — ou seja, nós — perde mais de
seis mil milhões e agora recebe, imagine-se, 1,6 milhões. Nem dá para cobrir o
custo dos comunicados de imprensa. E o pouco que entra nem sequer fica nos
cofres públicos, indo em parte significativa para o Fundo de Resolução. Só uns
700 ou 800 mil vão para o Orçamento do Estado. Traduzindo: devolvem-nos as
migalhas e ainda nos agradecem por termos pago o banquete.
Há quem chame a isto economia
de mercado. Eu chamo-lhe esbulho legalizado. Uma coreografia antiga entre
políticos, banqueiros e auditores — todos dançando ao som do mesmo fado
desafinado. E nós, os contribuintes, aplaudimos por hábito, cansados demais para
vaiar.
Trinta anos disto, ou mais.
Centenas de milhões desaparecidos entre offshores, sociedades veículo,
escritórios de advogados que escrevem as leis que depois os seus clientes usam
para as contornar. E agora, juízes. Os mesmos que deviam dizer “basta”. É o país
ao espelho — e o reflexo devolve-nos uma imagem difícil de encarar.
Uma justiça célere que deixa
prescrever crimes, que não age e tem de soltar presos preventivos, que deixa
outros fugir das cadeias, mas condena a velhinha que recebe uma mísera pensão,
que nem lhe chega ao dia 15, por furtar um chocolate ou uma embalagem de
iogurtes baratos no supermercado do grupo com sede na Holanda.
E assim continuamos:
aplaudindo a coreografia, pagando o banquete, e esperando que algum dia o país
aprenda os passos desta dança macabra. Hoje, a justiça olhou-se ao espelho. A
grande questão é se o país também terá coragem de encarar o reflexo.
António Ventura / Musgueira — Lisboa, 29 Out 25
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
AS MAMAS, O LEITE E A MAMAGEM
Crónica de um país ao sol (e à
sombra da estupidez)
Acordei cansado. Não daquele cansaço bom, de quem trabalhou, mas do cansaço de viver num país onde a ignorância tem likes, as mães que amamentam são tratadas como criminosas de produtividade, e a “época dos fogos” parece mais importante que o combate aos incêndios. Aquele cansaço de quem trabalhou arduamente, mas o repouso desconfiado do guerreiro que sabe que o dia lá fora é, provavelmente, mais perigoso que a própria guerra. Fiquei uns minutos na horizontal, a folhear — no ecrã, claro — as novas e as velhas notas de uns quantos onlookers e frequent social media publishers.
Nada de especial: umas ofensas involuntárias, uns sorrisos solitários (sim, rio-me sozinho, como um tolo), muita ingenuidade e, sobretudo, a já habitual falta de conhecimento histórico e político. É fascinante ver como, neste pequeno planeta em que vivemos, há quem escreva com a confiança de um sábio… mas com a ignorância de um nabo.
A incultura política é o novo
desporto nacional. A falta de nexo, a credulidade infantil — “naif”,
como se gosta de dizer —, as opiniões disparadas como se fossem tiros
certeiros… e que afinal só acertam no pé. Não se pode querer um país de
cidadãos com refinada literacia financeira, capazes de entender os sonhos
febris da senhora Lagarde ou os arremessos noctívagos de um Trump narcísico que
parece nunca dormir.
Como diz a psicóloga Filipa
Mendia, na “Tríade da Psicopatologia” mora o narcisismo (falta de empatia,
orgulho e egoísmo), o maquiavelismo e a psicopatia. Um condomínio completo,
hoje habitado por boa parte dos que julgam governar-nos — mas que, na prática,
nos destroem… e talvez nos levem à aniquilação global.
A manhã até começou com sol —
prenúncio de esperança, pensei eu. Ingénuo. Bastaram uns minutos de televisão e
rádio para perceber que o dia ia ser ruim. Lá estavam eles, os profissionais da
trapalhada, a falar de “governar” sem a menor ideia do que é servir o País e os
que ainda por cá resistem.
E eis que surge o escândalo
do dia: as “mamas e mamagens” ilegítimas. Não, não se trata de amamentação
clandestina, mas de mães que, vejam só a ousadia, tiram duas ou três horas do
trabalho para alimentar e acompanhar os filhos. Um abuso intolerável! Coitadas
das empresas, obrigadas a pagar salários altíssimos, enquanto estas mães
descaradas se atrevem a criar uma infância minimamente saudável. Felizmente, a
senhora ministra do Trabalho, atenta como um cão de guarda, descobriu a
artimanha. Não disse quantos casos havia — certamente mais de três — mas ficou
clara a mensagem: a maternidade é uma ameaça à produtividade.
Entretanto, o país arde.
Norte, centro… nada de novo. Há anos que alguém escreveu que se devia ter criado oficialmente a
“época dos fogos”, como temos a dos "Festivais", das "Vindimas de Palmela", dos "Festivais de Caneças", "Albergaria dos Doze", "Freixo de Espada à Cinta", do "Nos" e da "Cerveja Sagres" (o Meo do Sudoeste faliu, coitado do tão abençoado genro do Cavaco) ou do "melão de
Almeirim". Agora até se ouve que vão gastar 17 milhões para adaptar uns C-130
velhos para combate a incêndios. Uma genial ideia do não menos genial, o nosso senhor castrense Ministro Melo. Um crime: assim arriscam-se a estragar a nossa
nova tradição sazonal.
E as guerras? Ah, isso fica
para outro dia. Ainda não decidi se chamo nomes ou se mando simplesmente alguns
foder-se.
O sol já vai alto. Por aqui me
fico, aguardando que, ainda hoje, em alguma rede social, alguém me acuse de
“putinista”, “comunista” ou “ignorante”. Aguento tudo. Talvez até intente um
processo contra algum pavão político pela merda que faz em meu prejuízo e do
país.
Enquanto o país arde, os pavões da política discutem mamas, mamagens e outros disparates, convencidos de que governar é servir-se. Talvez um dia eu decida processá-los. Ou talvez emigre e vá pastar caracóis para uma agricultura mais desenvolvida — pelo menos lá não me chamam “putinista” ao pequeno-almoço.
Ir pastar
caracóis para uma agricultura mais desenvolvida. Quem sabe, até com wi-fi.
AV / Quartel em Venda da Porca (Estremoz) 08-08-2025
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O relatório independente sobre a sustentabilidade da Segurança Social, coordenado pelo economista Jorge Bravo, foi finalmente divulgado. Mas...
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A CONSTANÇA URBANO DE SOUSA com muito carinho e agradecimento!!! Alguém com bom senso poderá criticar, nesta hora triste que todo um p...
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SE ALGUÉM AINDA ACREDITAVA NA JUSTIÇA CEGA, HOJE TEVE UMA SURPRESA AMARGA: A JUSTIÇA OLHOU-SE AO ESPELHO — E NÃO GOSTOU DO QUE VIU Hoje,...