terça-feira, 22 de setembro de 2026

PALMA — "a gente vai continuar"

Hoje ficámos um pouco mais pobres. Morreu Jorge Palma. Ou, simplesmente, o Palma.

Era assim que nos anos 90 muitas vezes dizíamos: “Vamos ver o Palma.” Não era necessário dizer Jorge, nem explicar quem era. Palma bastava. Havia naquela familiaridade uma espécie de pertença colectiva. Ele era um dos nossos.

Jorge Palma foi um dos maiores músicos, compositores e poetas da música portuguesa contemporânea. Mas foi, acima de tudo, um homem livre. Livre na música, livre na palavra, livre na vida. Com as suas grandezas, fragilidades e excessos, nunca procurou esconder-se atrás de uma personagem cuidadosamente fabricada.

Recordo um concerto no Fórum Algarve.  A meio de “Encosta-te a Mim”, Palma caiu para trás, no banco do piano. Por momentos, o público gelou. De repente recompôs-se, voltou ao teclado e continuou — exactamente na nota musical onde tinha ficado. A louca genialidade. Era o Palma.

Imprevisível, frágil e extraordinário. Um homem que podia parecer à beira do abismo e, segundos depois, sentar-se ao piano e demonstrar a enorme qualidade do músico que ali estava.

Depois ficam as canções. Bairro do Amor, Estrela do Mar, Deixa-me Rir, Frágil, Na Terra dos Sonhos, O Meu Amor Existe, Encosta-te a Mim, A Gente Vai Continuar e tantas outras. Canções que já não são apenas dele. São nossas.

Palma escreveu sobre o amor sem pieguice, sobre a solidão sem pedir piedade, sobre as derrotas sem vergonha e sobre a liberdade sem precisar de proclamações. Escreveu sobre a vida como ela é: imperfeita, contraditória, algumas vezes cruel, outras absolutamente maravilhosa. E depois havia aquela voz. Inconfundível. Rouca, sofrida, por vezes quase quebrada, mas sempre sua. Uma voz que não precisava de perfeição porque tinha algo muito mais raro: verdade. O Palma foi único. O Palma era e será sempre nosso.

Marcou a sua geração e as seguintes de forma indelével. E que tristes ficamos hoje por o perder, sabendo que já não nos poderá brindar com mais uma daquelas engenhosas composições, mais uma frase inesperada, mais uma melodia ao piano, mais um concerto onde nunca sabíamos exactamente o que iria acontecer.

Morreu Jorge Palma. Mas não morreu o Palma.

Ficam as palavras, as melodias, o piano e aquela inolvidável voz. Ficam as noites, os concertos e as memórias de todos aqueles que, durante décadas, disseram simplesmente: “Vamos ver o Palma.”

E enquanto houver quem escute as suas canções, quem se encoste a alguém que ama, quem continue a acreditar que a gente vai continuar e, sobretudo, quem continue a acreditar na liberdade, Jorge Palma permanecerá entre nós.

Porque, em liberdade, aqueles que verdadeiramente nela crêem, todos somos Palma.

RIP

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