Era assim que
nos anos 90 muitas vezes dizíamos: “Vamos ver o Palma.” Não era necessário
dizer Jorge, nem explicar quem era. Palma bastava. Havia naquela familiaridade
uma espécie de pertença colectiva. Ele era um dos nossos.
Jorge Palma foi
um dos maiores músicos, compositores e poetas da música portuguesa
contemporânea. Mas foi, acima de tudo, um homem livre. Livre na música, livre
na palavra, livre na vida. Com as suas grandezas, fragilidades e excessos,
nunca procurou esconder-se atrás de uma personagem cuidadosamente fabricada.
Recordo um
concerto no Fórum Algarve. A meio de “Encosta-te
a Mim”, Palma caiu para trás, no banco do piano. Por momentos, o público gelou.
De repente recompôs-se, voltou ao teclado e continuou — exactamente na nota
musical onde tinha ficado. A louca genialidade. Era o Palma.
Imprevisível,
frágil e extraordinário. Um homem que podia parecer à beira do abismo e,
segundos depois, sentar-se ao piano e demonstrar a enorme qualidade do músico
que ali estava.
Depois ficam as
canções. Bairro do Amor, Estrela do Mar, Deixa-me Rir, Frágil, Na Terra dos
Sonhos, O Meu Amor Existe, Encosta-te a Mim, A Gente Vai Continuar e tantas
outras. Canções que já não são apenas dele. São nossas.
Palma escreveu
sobre o amor sem pieguice, sobre a solidão sem pedir piedade, sobre as derrotas
sem vergonha e sobre a liberdade sem precisar de proclamações. Escreveu sobre a
vida como ela é: imperfeita, contraditória, algumas vezes cruel, outras absolutamente
maravilhosa. E depois havia aquela voz. Inconfundível. Rouca, sofrida, por
vezes quase quebrada, mas sempre sua. Uma voz que não precisava de perfeição
porque tinha algo muito mais raro: verdade. O Palma foi único. O Palma era e
será sempre nosso.
Marcou a sua
geração e as seguintes de forma indelével. E que tristes ficamos hoje por o
perder, sabendo que já não nos poderá brindar com mais uma daquelas engenhosas
composições, mais uma frase inesperada, mais uma melodia ao piano, mais um
concerto onde nunca sabíamos exactamente o que iria acontecer.
Morreu Jorge
Palma. Mas não morreu o Palma.
Ficam as
palavras, as melodias, o piano e aquela inolvidável voz. Ficam as noites, os
concertos e as memórias de todos aqueles que, durante décadas, disseram
simplesmente: “Vamos ver o Palma.”
E enquanto
houver quem escute as suas canções, quem se encoste a alguém que ama, quem
continue a acreditar que a gente vai continuar e, sobretudo, quem continue a
acreditar na liberdade, Jorge Palma permanecerá entre nós.
Porque, em
liberdade, aqueles que verdadeiramente nela crêem, todos somos Palma.
RIP
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