Confesso o meu desencanto com o Brasil que ontem foi às urnas. E, mais do que desencanto, preocupação.
De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva. Operário metalúrgico, sindicalista, perseguido pela ditadura, fundador de um partido e três vezes Presidente da República. Um homem que fez do combate à pobreza uma prioridade, promoveu uma enorme mobilidade social e devolveu ao Brasil peso e respeito internacional. Só nos últimos dois anos, segundo dados oficiais, 17,4 milhões de brasileiros saíram da pobreza e ascenderam às classes A, B e C.
Pode-se gostar ou não de Lula. Pode-se criticá-lo
— naturalmente. Mas ninguém lhe pode apagar o percurso nem a dimensão política
internacional conquistada ao longo de décadas. Lula entra na ONU, no G20 ou nos
BRICS e é recebido e ouvido como Presidente de uma das maiores nações do mundo.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro.
Entrou na
política aos 21 anos e praticamente nunca mais dela saiu. Quatro mandatos como
deputado estadual, depois senador e agora candidato a Presidente. Há uma ironia
deliciosa nesta família: passa a vida a combater o Estado, mas há décadas que
vive politicamente dentro dele.
Flávio possui,
porém, um património que ninguém lhe pode retirar: o apelido.
E é
precisamente aqui que a coisa deixa de ter graça.
Flávio foi à
Casa Branca procurar Donald Trump, apresentou o pai como vítima de uma
injustiça e chegou a prometer que, com ele na Presidência, os Estados Unidos
teriam no Brasil “um presidente aliado”. Entretanto, a Polícia Federal
brasileira investiga alegadas tentativas de interferência externa nestas
eleições. Investigação não é condenação, naturalmente. Mas o assunto é
suficientemente grave para não ser varrido para debaixo do tapete.
O Brasil não
nasceu para ser quintal de Washington.
Muito menos
agora, quando petróleo, minerais críticos, terras-raras, água, agricultura e
outros recursos estratégicos brasileiros despertam enorme interesse das grandes
potências. Trump nunca escondeu que governa para defender os interesses
americanos. E sobretudo os seus próprios. Faz o seu papel.
O que seria
extraordinário era o Brasil eleger um Presidente disposto a confundir os
interesses dos Estados Unidos com os interesses do Brasil.
E talvez os
brasileiros devam olhar um pouco para o lado.
Para a
Argentina de Javier Milei, tão acarinhado por Trump e tantas vezes apresentado
como modelo desta nova direita latino-americana.
Depois de ter
descido fortemente desde o pico da crise, a pobreza argentina voltou a subir:
de 28,2% para 32,3%, com a indigência nos 7,5%. A propaganda pode anunciar
milagres. A pobreza não costuma ler comunicados de imprensa.
É este o
modelo que querem importar?
O Brasil não
precisa de transformar-se numa Argentina de Milei nem num jardim de Donald
Trump. É uma nação com mais de duzentos milhões de habitantes e uma dimensão
económica, territorial e geopolítica que lhe permite falar com Washington,
Pequim ou Bruxelas de pé — e não de joelhos.
E há ainda os
que não votaram.
Mais de 33
milhões de brasileiros ficaram em casa no primeiro turno. Talvez sejam eles
quem mais deva pensar no que estará em causa no próximo dia 25. Porque a
democracia também pode perder-se pela indiferença daqueles que acham que deixar
os outros escolher é uma forma de escolha.
E o Brasil tem
demasiada riqueza, demasiada história e demasiada dignidade para voltar a ser o
quintal de alguém.
De um lado, um homem que saiu
da fábrica para chegar à Presidência e levou o Brasil consigo aos grandes
fóruns do mundo.
Do outro, um homem que entrou
na política aos 21 anos e nunca mais de lá saiu.
Lula tem uma história. Flávio tem, sobretudo, um apelido.
Em defesa de LULA, defendendo o Brasil e os brasileiros.
Sem comentários:
Enviar um comentário