sábado, 19 de setembro de 2026

FRAGATAS E BARCAÇAS - SEGREDO MILITAR NÃO É SEGREDO NOS NEGÓCIOS

O senhor CEMGFA, general João Cartaxo Alves, veio defender o segredo militar nas aquisições de fragatas e de outro equipamento para as Forças Armadas, considerando que está tudo suficientemente «clarinho» e que há polémica a mais.Talvez esteja clarinho para o senhor General. Para os portugueses, que vão pagar cerca de 5,8 mil milhões de euros, alguma transparência não será certamente excessiva.

Segredo militar? Evidentemente. Ninguém pretende conhecer códigos, capacidades operacionais, sistemas de armas, comunicações ou vulnerabilidades das nossas fragatas.

Mas segredo militar é uma coisa. Segredo sobre negócios militares é outra.

E talvez convenha refrescar a memória.

Tivemos a Operação Zeus, com corrupção e sobrefacturação nas messes da Força Aérea, dezenas de arguidos e condenações que chegaram às altas patentes.

Tivemos o célebre negócio dos submarinos. Em Portugal, a investigação por corrupção acabou arquivada por insuficiência de prova. Na Alemanha, porém, dois antigos responsáveis da Ferrostaal foram condenados por suborno de funcionários públicos estrangeiros no âmbito dos negócios dos submarinos com Portugal e a Grécia. No segmento português, o tribunal alemão considerou provado o pagamento de 1,6 milhões de euros ao então cônsul honorário português em Munique, Jürgen Adolff, através de um contrato de consultoria, para facilitar contactos relacionados com o negócio português.

Curiosa geografia da Justiça: o negócio atravessou fronteiras, mas a responsabilidade criminal não viajou com igual facilidade. Que faltou?

Tivemos Tancos, com o roubo de material de guerra e a inacreditável novela da sua posterior recuperação.

Tivemos a Operação Miríade, com suspeitas envolvendo militares que haviam participado em missões no estrangeiro.

Temos a Operação Tempestade Perfeita, precisamente na área da Defesa, com dezenas de arguidos por crimes que incluem corrupção, peculato e branqueamento.

E ainda este ano o Ministério Público realizou buscas no Estado-Maior da Força Aérea e noutras unidades militares, numa investigação relacionada com contratação pública e suspeitas de corrupção, participação económica em negócio, abuso de poder, fraude fiscal e branqueamento.

Portanto, senhor General, talvez a História aconselhe alguma prudência antes de acharmos que está tudo tão «clarinho» como declarou.

Também durante a Guerra Colonial houve abusos, violências, desvios e crimes praticados por militares portugueses em África. Existem processos nos próprios arquivos da Justiça Militar que hoje permitem estudar essa realidade. Isso não significa, evidentemente, lançar uma acusação sobre os milhares de homens que foram enviados para uma guerra que não escolheram. Significa apenas reconhecer uma evidência bastante humana: uma farda não transforma ninguém em santo.

As Forças Armadas merecem respeito. Muito respeito. Mas respeito não é cheque em branco.

Agora estamos perante milhares de milhões de euros em fragatas, blindados, artilharia, drones, munições e outros equipamentos.

E quanto maior for o negócio, maior deve ser o escrutínio.

Quem vende? Quem negoceia? Quem escolhe? Quanto custa? Que propostas alternativas existiam? Quem fiscaliza? E, sobretudo, quem ganha com o negócio? Se é que alguém ganha…

Nada disto põe em perigo a Defesa Nacional. Põe, isso sim, alguma gente sob escrutínio.

Segredo sobre as capacidades militares das fragatas? Evidentemente.

Segredo sobre os negócios, os milhões e os seus beneficiários? Não, senhor General. O segredo militar existe para proteger Portugal.

Não para proteger negócios. 



Consultas 

 

https://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/ex_gestores_da_ferrostaal_condenados_por_suborno_na_venda_de_submarinos_a_portugal?utm_source=chatgpt.com

 https://cij.up.pt/pt/client/skins/geral.php?id=1824&utm_source

https://diap-lisboa.ministeriopublico.pt/destaque/participacao-economica-em-negocio-abuso-de-poder-corrupcao-passiva-e-ativa-buscas-mp-diap?utm

 Foto gerada por IA



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