Encontrei-te de novo, com a mesma alma, beleza e enfeites
Da tua alma de juventude que queria seguir em frente
Da tua beleza que não só meus olhos viam, mas todos
Os que te alcançavam ver
Dos teus enfeites, que sempre cuidavas ter
E meus olhos não pararam mais de te olhar
Não só nessas tuas fotos desse tempo
Mas todas as fotos que, eles te foram tirando nestes todos
anos
Da tua alma de juventude que queria seguir em frente
E de repente,
Fecho-os para melhor te ver
E penso se não terei eu esgotado,
Essa tua alma de juventude que queria seguir em frente
E esgotada a juventude da tua alma
Impedi-a de seguir em frente, minha culpa, e
Encontrei-te de novo, com a mesma alma, beleza e enfeites
De antes, de sempre…
E choro, chora muito a minha alma gasta de castigo
Chora por não ter sido o caminho comum da tua
Alma de juventude que queria seguir em frente
E volto a olhar tuas fotos
Todas, de ontem,
de hoje e de sempre
Que olho sem pressa que se me acabe o olhar
De te ver
E choro !
(AV. 2014.5)
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Troika: há dois anos e meio a criar excêntricos em Portugal
29 de janeiro de 2014 por Marisa matias
No ano passado eram 785, este ano são 870. Têm emcomum uma fortuna superior a 30 milhões dedólares (perto de 25 milhões de Euros). São 0,009% da população. Mais do que milionários, são ultra-milionários. Portugal é hoje um país mais pobre e mais desigual, mas com mais ultra-milionários.
Muita da riqueza “fugiu” do país nos últimos dois anos e meio. O PIB encolheu 6%, há mais 300 mil desempregados, mais de 350 pessoas emigram a cada dia que passa. O país sob intervenção é este. Um país onde o verdadeiro ajustamento é feito por via do massacre salarial e dos bens públicos, a par da concentração de riqueza.
A crise poderia ter sido uma oportunidade para repensar o modelo de desenvolvimento desgraçado que nos trouxe até aqui, para propor um novo contrato social. Mas assim não foi. A crise está antes a ser usada como uma oportunidade para repor os lucros.
A entrada da Troika em Portugal, a conivência e a subserviência do governo português e as sucessivas medidas adoptadas fizeram com que, no nosso país, sejam precisos cada vez mais pobres para “produzir” um rico. Escrevia Almeida Garrett, há bem mais de um século: “Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos”.
Acabámos de receber na nossa mesa de trabalho um artigo escrito pelo jornalista Nicolau Santos, que entendemos publicar, para outros o poderem analisar. É um artigo que merece ser lido até ao fim.
“Está a acontecer. Aquilo que nem nos passava pela cabeça que pudesse acontecer está mesmo a acontecer. Está a acontecer cada vez com mais regularidade as farmácias não terem os medicamentos de que precisamos. Está a acontecer que nos hospitais há racionamento) de fármacos e uma utilização cada vez mais limitada dos equipamentos. Está a acontecer que muitos produtos que comprávamos nos supermercados desapareceram e já não se encontram em nenhuma prateleira. Está a acontecer que a reparação de um carro, que necessita de um farol ou de uma peça, tem agora de esperar uma ou duas semanas porque o material tem de ser importado do exterior. Está a acontecer que as estradas e as ruas abrem buracos com regularidade, que ou ficam assim durante longos meses ou são reparados de forma atamancada, voltando rapidamente a reabrir. Está a acontecer que a iluminação pública é mais reduzida, que mais e mais lojas dos centros comerciais são entaipadas e desaparecem misteriosamente. Está a acontecer que nas livrarias há menos títulos novos e que as lojas de música se volatilizaram completamente. Está a acontecer que nos bares e restaurantes há agora vagas com fartura, que os cinemas funcionam a meio gás, que os teatros vivem no terror da falta de público. Está tudo isto a acontecer e nós, como o sapo colocado em água fria que vai aquecendo lentamente até ferver, não vemos o perigo, vamos aceitando resignados este lento mas inexorável definhar da nossa vida coletiva e do Estado social, com uma infinita tristeza e uma funda turbação.
Está a acontecer e não poderia ser de outro modo. Está a acontecer porque esta política cega de austeridade está a liquidar a classe média, conduzindo-a a uma crescente pauperização, de onde não regressará durante décadas. Está a acontecer porque, nos últimos quase 40 anos, foi esta classe média que alimentou cinemas, teatros, espetáculos, restaurantes, comércio, serviços de saúde, tudo o que verdadeiramente mudou no país e aquilo que verdadeiramente traduz os hábitos de consumo numa sociedade moderna. Foi na classe média — de professores, médicos, funcionários públicos, economistas, pequenos e médios empresários, jornalistas, artistas, músicos, dançarinos, advogados, polícias, etc. —, que a austeridade cravou o seu mais afiado e longo punhal. E com a morte da classe média morre também a economia e o próprio país.
E morre porque era esta classe média que mais consumia — e que mais estimulava — os produtos culturais nacionais, da literatura à dança, dos jornais às revistas, da música a outro tipo de espetáculos e de manifestações culturais. É por isso que a cultura está a morrer neste país, juntamente com a economia. E se a economia pode ainda recuperar lentamente, já a cultura que desaparece não volta mais. Um país sem economia é um sítio. Um país sem cultura não existe.
Durante a II Guerra Mundial, quando o esforço militar consumia todos os recursos das ilhas britânicas, foi sugerido ao primeiro-ministro Winston Churchill que cortasse nas verbas da cultura. O homem que conduziu a Inglaterra à vitória sobre a Alemanha recusou perentoriamente. “Se cortamos na cultura, estamos a fazer esta guerra para qué?” Mutatis mutandis, a mesma pergunta poderíamos fazer hoje: se retiramos todas as verbas para a cultura, estamos a fazer este ajustamento em nome de quê? Mas esta, claro, é uma questão que nunca se colocará às brilhantes cabeças que nos governam”.
Nicolau Santos
Muito há, que aos poucos nos vai arruinando e flagelando. Felizmente, que o Povo se vai apercebendo da má “roleta” governativa que diariamente vamos enfrentando.
Felizmente, que este sente a degradante situação em que vive e unido, manifestou o seu descontentamento, ao aderir em força às manifestações hoje realizadas.
Felizmente, que conscienciosamente nos vamos apercebendo, da má política, que diariamente os governantes nos vão impondo.
"As dificuldades incentivam a luta do homem e orientam os seus caminhos."
Os portugueses, e não só os militares, têm direito constitucional à resistência, diz em jeito de alerta a Associação de Oficiais das Forças Armadas.
Revolução foi a palavra que mais se ouviu esta tarde na conferência de imprensa promovida pela Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), para dizer que os militares estão fartos da política de austeridade imposta pelo Governo.
"Não vamos fazer nenhuma revolução. As revoluções não se anunciam, fazem-se", disse aos jornalistas o presidente da associação, coronel Pereira Cracel.
"Portugal está a ser governado por um conjunto de pessoas que parece não perceber para onde nos estão a levar. Esta gente está a fazer pouco de todos nós", acrescentou o líder da AOFA, atualmente na situação de reserva.
Logo a seguir, o coronel Jara Franco, vogal da direção, fez questão de lembrar que, de acordo com o artigo 21 da Constituição, os portugueses, e não só os militares, têm direito à resistência. "Os portugueses estão a ser cozidos dentro de uma panela. E se para nos libertarmos tivermos de queimar o cozinheiro, o problema é dele!", afirma este militar recorrendo a uma linguagem metafórica.
"Não podemos passar o resto da vida a condenar metade da população, sobretudo os idosos, a comer cerelac. Nós jurámos defender a pátria e os portugueses", acrescentou o militar que está na reserva.
Jara Franco disse ainda que há majores e coronéis que residem na zona de Lisboa e trabalham na base do Montijo, que não vêm a casa durante a semana "para não pagarem a gasolina e as portagens e porque têm a alimentação e o banho oferecidos".
Mais à frente, o almirante Castanho Paes, presidente da mesa da assembleia geral da AOFA, garantiu que "a legião de descontentes contra o estado a que chegámos (a conhecida expressão do capitão de Abril, Salgueiro Maia, por diversas vezes citada na conferência de imprensa), está a crescer".
"Está certo que a viúva de um militar tenha de deixar a casa onde sempre viveu por não poder pagar a renda?", questionou o almirante já reformado, visivelmente emocionado e indignado. "A grande revolução seria a força da razão prevalecer sobre a razão da força", defendeu.
No encontro com os jornalistas foi anunciada a marcação de uma reunião de oficiais para o próximo dia 22 de fevereiro, em local e hora ainda a designar, onde "farão uma reflexão coletiva" sobre o que poderão os militares fazer para alterar o rumo do país.
Pés no Sofá: CARTA ABERTA A UM DUX: Dux: Ando aqui com esta merda entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das...
A ideologia punitiva sobre os
mais velhos prossegue entre um muro de indiferença, um biombo de manipulação,
uma ausência de reflexão colectiva e uma tecnocracia gélida.
Escreveu
Jean Cocteau: “Uma garrafa de vinho meio vazia está meio cheia. Mas uma meia
mentira nunca será uma meia verdade”. Veio-me à memória esta frase a propósito
das meias mentiras e falácias que o tema pensões alimenta. Eis (apenas)
algumas:
“As pensões e salários pagos
pelo Estado ultrapassam os 70% da despesa pública, logo é aí que se tem
que cortar”. O número está, desde logo, errado: são 42,2% (OE
2014). Quanto às pensões, quem assim faz as contas esquece-se que ao seu
valor bruto há que descontar a parte das contribuições que só existem por causa
daquelas. Ou seja, em vez de quase 24.000 M€ de pensões
pagas (CGA + SS) há que abater a parte que financia a sua componente
contributiva (cerca de 2/3 da TSU). Assim sendo, o valor que sobra
representa 8,1% da despesa das Administrações Públicas.
Ou
seja, nada de diferente do que o Estado faz quando transforma as SCUT em
auto-estradas com portagens, ao deduzi-las ao seu custo futuro. Como à
despesa bruta das universidades se devem deduzir as propinas. E tantos
outros casos…
Curiosamente
ninguém fala do que aconteceu antes: quando entravam mais contribuições do
que se pagava em pensões. Aí o Estado não se queixava de aproveitar fundos
para cobrir outros défices
Outra
falácia: “o sistema
público de pensões é insustentável”. Verdade seja dita que
esse risco é cada vez mais consequência do efeito duplo do desemprego
(menos pagadores/mais recebedores) e - muito menos do que se pensa - da
demografia, em parte já compensada pelo aumento gradual da idade de
reforma (f. de sustentabilidade). Mas porque é que tantos “sábios de
ouvido” falam da insustentabilidade das pensões públicas e nada dizem
sobre a insustentabilidade da saúde ou da educação também pelas mesmas
razões económicas e demográficas? Ou das rodovias? Ou do sistema de
justiça? Ou das Forças Armadas? Etc. Será que só para as pensões o pagador
dos défices tem que ser o seu pseudo “causador”, quase numa generalização
do princípio do poluidor/pagador?
“A CES não é um imposto”,
dizem. Então façam o favor de explicar o que é? Basta de logro
intelectual. E de “inovações” pelas quais a CES (imagine-se!) é
considerada em contabilidade nacional como “dedução a prestações sociais” (p. 38
da Síntese de Execução Orçamental de Novembro, DGO).
“95% dos pensionistas da SS
escapam à CES”, diz-se com cândido rubor social. Nem se dá
conta que é pela pior razão, ou seja por 90% das pensões estarem abaixo
dos 500 €. Seria, como num país de 50% de pobres, dizer que muita gente é
poupada aos impostos. Os pobres agradecem tal desvelo.
A
CES, além de um imposto duplo sobre o rendimento, trata de igual modo
pensões contributivas e pensões-bónus sem base de descontos, não
diferencia careiras longas e nem sequer distingue idades (diminuindo o
agravamento para os mais velhos) como até o fazia a convergência
(chumbada) das pensões da CGA.
“As pensões podem ser cortadas”,
sentenciam os mais afoitos. Então o crédito dos detentores da dívida
pública é intocável e os créditos dos reformados podem ser sujeitos a
todas as arbitrariedades?
“Os pensionistas têm tido menos
cortes do que os outros”. Além da CES, ter-se-ão esquecido do
seu (maior) aumento do IRS por fortíssima redução da dedução específica?
Caminhamos
a passos largos para a versão refundida e dissimulada do famigerado
aumento de 7% na TSU por troca com a descida da TSU das empresas. Do lado
dos custos já está praticamente esgotado o mesmo efeito por via laboral e
pensional, do lado dos proveitos o IRC foi já um passo significativo.
Com
os dados com que o Governo informou o país sobre a “calibrada” CES, as
contas são simples de fazer. O buraco era de 388 M€. Descontado o montante
previsto para a ADSE, ficam por compensar 228 M€ através da CES.
Considerando um valor médio de pensão dos novos atingidos (1175€ brutos),
chegamos a um valor de 63 M€ tendo em conta o número – 140.000 pessoas -
que o Governo indicou (parece-me inflacionado…). Mesmo juntando mais
alguns milhões de receitas por via do agravamento dos escalões para as
pensões mais elevadas, dificilmente se ultrapassam os 80 M€. Faltam 148 M,
quase 0,1% do PIB (dos 0,25% que o Governo entendeu não renegociar com a troika,
lembram-se?). Milagre? “Descalibração”? Só para troika ver?
A
apelidada “TSU dos
pensionistas” prevista na carta que o PM enviou a Barroso,
Draghi e Lagarde em 3/5/13 e que tinha o nome de “contribuição de sustentabilidade
do sistema de pensões” valia 436 M€. Ora a CES terá rendido no
ano que acabou cerca de 530 M€. Se acrescentarmos o que ora foi anunciado,
chegaremos, em 2014, a mais de 600 M€ de CES. Afinal não nos estamos a
aproximar da “TSU dos pensionistas”, mas a … afastarmo-nos. Já vai em mais
40%!
A
ideologia punitiva sobre os mais velhos prossegue entre um muro de
indiferença, um biombo de manipulação, uma ausência de reflexão colectiva
e uma tecnocracia gélida. Neste momento, comparo o fácies da ministra das
Finanças a anunciar estes agravamentos e as lágrimas incontidas da
ministra dos Assuntos Sociais do Governo Monti em Itália quando se viu
forçada a anunciar cortes sociais. A política, mesmo que dolorosa, também
precisa de ter uma perspectiva afectiva para os atingidos. Já agora onde
pára o ministro das pensões?
P.S. Uma
nota de ironia simbólica (admito que demagógica): no Governo há “assessores de
aviário”, jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3.000€ mensais.
Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só
pagam IRS! Ética social da austeridade?